Ninguém chora pela extinção dos anuros: o Cais do Sertão já vai reabrir.
Para os amigos não-pernambucanos, trata-se do mais novo e moderno museu/equipamento cultural do Estado, gerido por uma Organização Social (OS), a mesma do Paço do Frevo (PE) e, salvo engano, do Museu do Amanhã (RJ), nos termos de um acordo que envolve repasse de recursos públicos e captação de verba privada. Desde meados de 2015 ouvimos notícias sobre uma crise nesse Museu (demissões, redução de horário de funcionamento, denúncias de atrasos e não pagamento dos repasses do Governo), bem como rumores sobre seu fechamento.
Em janeiro de 2016 os rumores se concretizam, por pouco tempo. As redes sociais, então, se encheram de #somostodosCaisDoSertão, louvável preocupação. Curioso, contudo, para não dizer cruel, as hashtags não surgirem nas crises e fechamentos de outros equipamentos, imaginei: #somostodosCasaDoCarnaval,#somostodosMemorialChicoScience, #somostodosMuseuDeArtePopular,#somostodosCEFAV, #somostodosMAMAMnoPátio... Isso para falar apenas dos equipamentos localizados no Pátio de São Pedro, no bairro de São José.
Vi, quando trabalhei na Casa do Carnaval (Prefeitura) e na FUNDARPE (Gov. do Estado), museus definharem lentamente por desinteresse da gestão pública. A última gestão petista no Recife marca o começo da ruína dos equipamentos do Pátio de São Pedro, portanto, o prefeito atual, do PSB, só concluiu a tarefa e usa o êxito do Paço do Frevo para ofuscá-la. O Cais do Sertão, por sua vez, cumpre o mesmo papel para o Governo Estadual também do PSB.
Quem trabalha em equipamentos culturais públicos convive, ou vive assombrado, com o atraso, diminuição drástica ou mesmo a suspensão de recursos. Por uma questão de “redução de gastos”, do dia para noite a equipe é reduzida, ações são inviabilizadas. Os profissionais que restam devem se empenhar em mostrar serviço, “vestir a camisa”, caso contrário perdem o lugar. Os nossos gestores públicos pensam que os bons profissionais de museus e equipamentos conseguem fazer de um limão seco dois litros de limonada suíça. Elogiam o diretor/equipe “criativo”, aquele que sem um centavo, na camaradagem, realiza ações, e faz tudo funcionar “normalmente” para a cidade não perceber o buraco. Os espaços não produzem, não pesquisam, mas abrem de segunda a sexta em horário comercial, realizam uma oficina de biscuit com a comunidade e uma exposição de um(a) artista local, de graça, em troca de “visibilidade” para ele/ela. Essa crise dos museus municipais e estaduais não é noticiada, porque é cotidiano. Os “criativos” que “vestem a camisa” não percebem o desserviço prestado, caem na armadilha de continuar trabalhando com menos, fingindo normalidade à revelia dos crivos de qualidade, profundidade e alcance das ações. Consequentemente, a gestão pública segue dando menos e esperando mais, numa lógica de exploração capitalista e de entendimento equivocado quanto ao conceito e priorização de políticas culturais. Na verdade, nossos museus respiram por aparelhos. Depois de ter a equipe e os recursos reduzidos o Cais do Sertão fez bem em fechar!
Frente aos demais museus públicos pernambucanos, O Cais do Sertão é bem resolvido, um sucesso e uma beleza. Localizado em um lugar privilegiado da cidade - Centro Histórico do Recife, alvo de grandes investimentos num antigo e reavivado projeto de "revitalização" (leia-se gentrificação e higienização) -, é grandioso e tecnológico, com forte apelo turístico, adesão da classe média e conectado com a “grife” Fundação Roberto Marinho. Tranquilizem-se, repentinos amantes da cultura, o Cais do Sertão reabrirá, custou muito dinheiro ao Estado e está sob a vigilância ferrenha das hashtags. Todos choram por ele. Fácil se comover pela extinção do panda ou do mico-leão-dourado, difícil é fazer campanha contra a extinção dos anuros - popularmente conhecidos como sapos, rãs e pererecas –. Enquanto isso os museus/equipamentos do Pátio de São Pedro esperam o beijo da princesa para serem vistos.
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Em tempo, o Cais do Sertão, a meu ver, apresenta uma narrativa expográfica conservadora e essencialista sobre o Nordeste, porém, cumpre o seu papel de mobilizar emblemas identitários historicamente consagrados para evocar pontos de identificação na ideia de uma experiência regional compartilhada por nordestinos/pernambucanos. Como efeito advertido, reascende conteúdos “regionalistas” de um Nordeste da memória, da tradição, do rural e etéreo. Assim, do mesmo modo em que não problematiza tais emblemas nem desconstrói antigas imagens e discursos constituintes da Região, desconsidera novas demandas urbano-tecnológicas e não agencia questões políticas urgentes como a transposição do São Francisco, a experiência das etnias indígenas e dos quilombolas do sertão, a destruição da caatinga, as novas abordagens sobre a seca, a arte do sertão para além da xilogravura e do forró... Penso que o visitante sai de lá contente e, por vezes, emocionado, especialmente os que se reconhecem no universo de “referências nordestinas”. Vale aproveitar a breve pausa, porém, para agregar/explorar outras dimensões da recepção. Gosto de exposições que também me deixem impactado e pensativo.
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Hugo Menezes Neto
Professor Adjunto do Curso de graduação em Museologia da UFPA.
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Em tempo, o Cais do Sertão, a meu ver, apresenta uma narrativa expográfica conservadora e essencialista sobre o Nordeste, porém, cumpre o seu papel de mobilizar emblemas identitários historicamente consagrados para evocar pontos de identificação na ideia de uma experiência regional compartilhada por nordestinos/pernambucanos. Como efeito advertido, reascende conteúdos “regionalistas” de um Nordeste da memória, da tradição, do rural e etéreo. Assim, do mesmo modo em que não problematiza tais emblemas nem desconstrói antigas imagens e discursos constituintes da Região, desconsidera novas demandas urbano-tecnológicas e não agencia questões políticas urgentes como a transposição do São Francisco, a experiência das etnias indígenas e dos quilombolas do sertão, a destruição da caatinga, as novas abordagens sobre a seca, a arte do sertão para além da xilogravura e do forró... Penso que o visitante sai de lá contente e, por vezes, emocionado, especialmente os que se reconhecem no universo de “referências nordestinas”. Vale aproveitar a breve pausa, porém, para agregar/explorar outras dimensões da recepção. Gosto de exposições que também me deixem impactado e pensativo.
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Hugo Menezes Neto
Professor Adjunto do Curso de graduação em Museologia da UFPA.