domingo, 7 de fevereiro de 2016

Ninguém chora pela extinção dos anuros: o Cais do Sertão já vai reabrir.

Ninguém chora pela extinção dos anuros: o Cais do Sertão já vai reabrir.
Para os amigos não-pernambucanos, trata-se do mais novo e moderno museu/equipamento cultural do Estado, gerido por uma Organização Social (OS), a mesma do Paço do Frevo (PE) e, salvo engano, do Museu do Amanhã (RJ), nos termos de um acordo que envolve repasse de recursos públicos e captação de verba privada. Desde meados de 2015 ouvimos notícias sobre uma crise nesse Museu (demissões, redução de horário de funcionamento, denúncias de atrasos e não pagamento dos repasses do Governo), bem como rumores sobre seu fechamento.
Em janeiro de 2016 os rumores se concretizam, por pouco tempo. As redes sociais, então, se encheram de ‪#‎somostodosCaisDoSertão‬, louvável preocupação. Curioso, contudo, para não dizer cruel, as hashtags não surgirem nas crises e fechamentos de outros equipamentos, imaginei: ‪#‎somostodosCasaDoCarnaval‬,‪#‎somostodosMemorialChicoScience‬, ‪#‎somostodosMuseuDeArtePopular‬,‪#‎somostodosCEFAV‬, ‪#‎somostodosMAMAMnoPátio‬... Isso para falar apenas dos equipamentos localizados no Pátio de São Pedro, no bairro de São José.
Vi, quando trabalhei na Casa do Carnaval (Prefeitura) e na FUNDARPE (Gov. do Estado), museus definharem lentamente por desinteresse da gestão pública. A última gestão petista no Recife marca o começo da ruína dos equipamentos do Pátio de São Pedro, portanto, o prefeito atual, do PSB, só concluiu a tarefa e usa o êxito do Paço do Frevo para ofuscá-la. O Cais do Sertão, por sua vez, cumpre o mesmo papel para o Governo Estadual também do PSB.
Quem trabalha em equipamentos culturais públicos convive, ou vive assombrado, com o atraso, diminuição drástica ou mesmo a suspensão de recursos. Por uma questão de “redução de gastos”, do dia para noite a equipe é reduzida, ações são inviabilizadas. Os profissionais que restam devem se empenhar em mostrar serviço, “vestir a camisa”, caso contrário perdem o lugar. Os nossos gestores públicos pensam que os bons profissionais de museus e equipamentos conseguem fazer de um limão seco dois litros de limonada suíça. Elogiam o diretor/equipe “criativo”, aquele que sem um centavo, na camaradagem, realiza ações, e faz tudo funcionar “normalmente” para a cidade não perceber o buraco. Os espaços não produzem, não pesquisam, mas abrem de segunda a sexta em horário comercial, realizam uma oficina de biscuit com a comunidade e uma exposição de um(a) artista local, de graça, em troca de “visibilidade” para ele/ela. Essa crise dos museus municipais e estaduais não é noticiada, porque é cotidiano. Os “criativos” que “vestem a camisa” não percebem o desserviço prestado, caem na armadilha de continuar trabalhando com menos, fingindo normalidade à revelia dos crivos de qualidade, profundidade e alcance das ações. Consequentemente, a gestão pública segue dando menos e esperando mais, numa lógica de exploração capitalista e de entendimento equivocado quanto ao conceito e priorização de políticas culturais. Na verdade, nossos museus respiram por aparelhos. Depois de ter a equipe e os recursos reduzidos o Cais do Sertão fez bem em fechar!
Frente aos demais museus públicos pernambucanos, O Cais do Sertão é bem resolvido, um sucesso e uma beleza. Localizado em um lugar privilegiado da cidade - Centro Histórico do Recife, alvo de grandes investimentos num antigo e reavivado projeto de "revitalização" (leia-se gentrificação e higienização) -, é grandioso e tecnológico, com forte apelo turístico, adesão da classe média e conectado com a “grife” Fundação Roberto Marinho. Tranquilizem-se, repentinos amantes da cultura, o Cais do Sertão reabrirá, custou muito dinheiro ao Estado e está sob a vigilância ferrenha das hashtags. Todos choram por ele. Fácil se comover pela extinção do panda ou do mico-leão-dourado, difícil é fazer campanha contra a extinção dos anuros - popularmente conhecidos como sapos, rãs e pererecas –. Enquanto isso os museus/equipamentos do Pátio de São Pedro esperam o beijo da princesa para serem vistos.
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Em tempo, o Cais do Sertão, a meu ver, apresenta uma narrativa expográfica conservadora e essencialista sobre o Nordeste, porém, cumpre o seu papel de mobilizar emblemas identitários historicamente consagrados para evocar pontos de identificação na ideia de uma experiência regional compartilhada por nordestinos/pernambucanos. Como efeito advertido, reascende conteúdos “regionalistas” de um Nordeste da memória, da tradição, do rural e etéreo. Assim, do mesmo modo em que não problematiza tais emblemas nem desconstrói antigas imagens e discursos constituintes da Região, desconsidera novas demandas urbano-tecnológicas e não agencia questões políticas urgentes como a transposição do São Francisco, a experiência das etnias indígenas e dos quilombolas do sertão, a destruição da caatinga, as novas abordagens sobre a seca, a arte do sertão para além da xilogravura e do forró... Penso que o visitante sai de lá contente e, por vezes, emocionado, especialmente os que se reconhecem no universo de “referências nordestinas”. Vale aproveitar a breve pausa, porém, para agregar/explorar outras dimensões da recepção. Gosto de exposições que também me deixem impactado e pensativo.
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Hugo Menezes Neto
Professor Adjunto do Curso de graduação em Museologia da UFPA.

No alto da colina

Hoje nossos pés quase não tocam o chão, por isso não sentimos o cheiro da terra. A força telúrica está na conexão entre nós, a estrada e o beco sem saída. Não há atalho para quem anda sem rumo, como nós. A princípio, abreviar é tão tolo quanto andar em círculos. Na verdade, porém, círculos são trajetórias insistentes, possuem razões próprias e méritos, assim como a contramão... Do jeito displicente, para não dizer incompreensível, com o qual andamos, passo a passo automatizamos o destino. Desavisados, carregamos excessos e procuramos o caminho mais curto e plano. Atrofiamos o discernimento, não mais sabemos quais as nossas necessidades profundas. Olhar para baixo não é cautela, é reverência, para trás é instinto. O rancor pesa, a esperança também, esse é o dilema. O bom andarilho pisa fundo na lama, sente os pés serem envolvidos e nela penetrar como semente. Ninguém sai ileso das sensações orgasmáticas de deflorar seu próprio chão e de deixar-se comer pelo tempo enquanto contempla a paisagem, completamente nu, no alto da colina.
Hugo Menezes.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A casa sou eu.

Abrigo a mim e as minhas diversas formas de existir.
Sou campo minado e jardim fecundo.
Meu corpo esconde, a alma fareja.
Debocho das portas fechadas e devoro as brechas.
A vida nova está embaixo dos pés e na força das asas.
Ode ao tempo morto e ao desapego. Ode a tudo que se regenera.
Ciclo solar, batismo de fogo que mata, renova e fertiliza. 
Viva!


Agora quero abrir o porão. Lá encontrarei, como diria Lispector, “o pensamento atrás do pensamento”. Há muito não visito esse (in)cômodo. É fácil ficar apenas na sala asséptica, tudo em seu devido lugar e o lixo menos nocivo embaixo do tapete para ninguém ver, nem eu. Limpo com aflição esse espaço da resiliência, e nos porta-retratos projeto minha ficção: camadas e mais camadas de representações, expectativas, sorrisos e tinta branca. Instintivamente, como que por sobrevivência, guardo no porão um eu impublicável, fotos desfocadas, rascunhos, fracassos, desencontros. Transformo parte da casa numa masmorra onde com irregularidade alimento, silenciosa e involuntariamente, meus prisioneiros. Entro sem bater, invadindo meu próprio território. Monstros adormecidos saúdam meu ato de bravura. O bom inimigo deve reconhecer a coragem do seu adversário, o bom soldado se vê como o primeiro inimigo a ser vencido. Cumpri a missão que estabeleci sem saber se era autopunição ou privilégio. Revirei lembranças, ressentimentos empoeirados e rancores fora da validade. Alguns me surpreenderam por resistir, convalescentes perdiam a cor lentamente. Outros vivos e intensos como um quadro de Klint e difusos como as linhas de Dalí, continuavam a sangrar. O cheiro é mofo com um tanto de orgulho e salvação. Diversos espelhos refletiam imagens disformes, demorei em distinguir os meus “eus” guardados.  Doídos são os desafetos que me olhavam nos olhos com fúria e amor reprimido. Um deles estendeu a mão. Ignorei. Não sou tão generoso como gostaria, não consigo colocá-lo no colo e dizer “vamos ficar bem”, pois aqui tudo o que parece realmente é. Depois de condenados a viver juntos aprendi a desamar sem compaixão. Atônito, ouvi os gritos do meu pai me ensinando como um homem “de verdade” deve se comportar. Vi um adolescente acuado no canto esquerdo (desilusões amorosas desbotadas soam hoje tragicômicas). Antes de partir, esbarrei em coisas da minha mãe encaixotadas, avisavam: cuidado, frágil e inflamável. Ao sair, respirei fundo a descoberta de que o pensamento atrás do pensamento é abismo. O passado é o suicídio do  presente e o amanhã uma promessa. Salve-se, não espere. Vou substituir os porta-retratos pelas flores murchas e os rabiscos que encontrei no porão, eles são mais sinceros. Como todos os anos, abrirei um champanhe para brindar meu caminho de volta, a partir dele ganho o mundo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O gozo como subversão: aqueles dois

O gozo como subversão: aqueles dois.

Dois corpos nus no chão, entrelaçados sem começo, meio e fim, olham-se mútua e fixamente com certo orgulho de sua cumplicidade. Ainda exalavam lascívia e mansidão, como se o mundo se encerrasse ali na disforme geometria da luxúria. Profanaram-se sem culpa, debochando das punições, finalmente tomaram para si as regiões inacessíveis do outro, atacando-se. As carnes rasgadas eram marcas da guerra, de quando invadiram-se por horas, de quando comeram-se famintos e sem paz. Só agora, nesse estado de exaustão definitiva, ressentem-se do tempo perdido com pudores nocivos e moralidades mórbidas. Gemidos incrustados nas paredes eram palavras da salvação pronunciadas sensualmente, as únicas testemunhas. Não havia desejo apenas, os corpos abandonados sugeriam vida ao avesso, desvida, porque sempre é tarde demais para pagar a dívida, porque tudo desaba quando se revela o não dito. Restava apenas o nosso insuportável reflexo aprisionado na retina alheia, melhor atear fogo e respirar intensamente a combustão das normas. A beleza do corpo carbonizado reverte-se na fumaça que sobe sem limites, na potência restaurada pela transformação da matéria. Aqueles dois, cabeças iguais, mãos dadas, pernas trançadas, um dentro do outro, confundiam-se numa massa amorfa e à medida que se penetravam cresciam. A seiva dos seus orgasmos rebeldes fora soterrada pelo medo do contraexemplo, então, gigantescas flores carnívoras com formatos de genitais brotam da terra tocada pela fertilidade e poética revolucionária: nada mais deve nascer do que é consagrado. O sorriso melancólico denunciava a experiência dos desertores, daqueles cujo único caminho é a negação e o confronto, a substituição da existência despontencializada pelo gozo erótico como experiência política libertadora. Sabiam, aqueles dois, que nos corpos indecorosos está a esperança, por isso morrer de tanto trepar é um poderoso ato de subversão e protesto.  
Hugo Menezes Neto

23/11/2015.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dores e ausências nos museus de Belém: comentários despretensiosos sobre a Primavera de Museus.

Dores e ausências nos museus de Belém.
Comentários despretensiosos sobre a Primavera de Museus.

Dor de Museu
“Só posso chamar assim porque essa dor só aparece quando percorro museus. Mal começo a caminhar e a parar diante dos quadros vem a dor no ombro esquerdo – é sempre a mesma. Gostaria de saber do que se trata. É dor de emoção?” (Clarice Lispector, 1999:153). 

            Creio, inspirado em Clarice Lispector, que os museus são lugares propícios para a “dor de emoção” por seu potencial para ativar reflexões sobre nós e para iluminar - por dispositivos estéticos, imagéticos e discursivos – os processos de construção das nossas realidades (Berger e Luckmann, 2004). No complexo museal do centro histórico de Belém (como em outras cidades), entretanto, esse potencial é desperdiçado. 
          Nos museus, a meu ver, ideais, as verdades são destronadas, o oficial é questionado, a lógica cartesiana suplantada, a diversidade e a diferença exaltadas. Nada é apenas belo, triunfante e relativo ao passado: o feio (e outras poéticas), as derrotas e o presente também compõem seus conteúdos. A dor, portanto, seria parte inerente da experiência. Pulsaria naturalmente, numa espécie de efeito advertido da quebra da estabilidade emocional (metáfora para os paradigmas do pensamento colonial, da domesticação do olhar, dos corpos dóceis, das matrizes culturais normativas... pensando em  Boaventura, Rancière, Foucault e Butler) pautada na letargia-alienação na qual vive nossa sociedade tarja preta.
    O visitante-turista dos museus de Belém, ávido por uma selfie e por entretenimento inofensivo, passeia com tranquilidade fleumática entre narrativas expográficas embebidas na história oficial-hegemônica; leia-se branca, masculina, heterossexual, católica e elitizada. Esses museus, em grande medida, estão a serviço da supervalorização da belle époque belenense e dos personagens locais tidos como importantes. Destacam as referências identitárias luso-brasileiras em detrimento das indígenas e negras, apagando-as. Neles, Lauro Sodré, Antônio Landi e outros homens (governantes, arquitetos, desbravadores) são rememorados e reverenciados. E onde estão as mulheres da história de Belém? E os gays, lésbicas e travestis? Os visitantes mais críticos, no entanto, sentem a “dor da ausência” dessas outras perspectivas e vozes para narrar quem somos e como nos tornamos o que somos. Essa é outra “dor de museu”.  
Esses museus precisam urgentemente revisitar seus conceitos de tempo e espaço, categorias fundamentais da experiência e da apreensão humana (Hyussen, 2000). Devem desestabilizar o privilégio dado ao passado (Idem), aproximando-se das questões do presente e, consequentemente, da vida fora da instituição, a fim de reanimar seus conteúdos nas chaves da identificação e do pertencimento. A retomada do presente, além de reintegrar o cotidiano à história (e à memória) e derrubar os muros para expandir a atuação dos museus, demarca uma posição crítica ao “excesso de conservação” que alicerça os discursos patrimoniais-museais (Jeudy, 2005). Trazer para os museus os problemas do cotidiano urbano, ou levá-los para a cidade, é, inclusive, uma orientação da Nova Museologia, registrada na Carta de Santiago do Chile de 1972, relevante documento para a esse campo de conhecimento, mas, que os gestores parecem desconhecer.
          Movimentemo-no por mais “dor de emoção” e menos “dor de ausência” nos museus de Belém. Espero outras primaveras alinhadas com o pensamento pós-colonial, logo, com referências contundentes às civilizações indígenas e africanas, com mais visibilidade para as mulheres, gays, lésbicas e trans; mais holofotes voltados para os mestres da cultura popular, lideranças comunitárias, artistas de rua, pais e mães de santo, pajés... Torço por primaveras com escopo político, conectadas aos movimentos sociais, com museus tomados pelo movimento negro, movimento LGBTT (e quantas letras forem necessárias), movimento feminista, movimento pelos direitos indígenas... Primaveras que trate de vida, para além das demandas do patrimônio cultural, abrindo frestas para discutir problemas das minorias sociais, mobilidade e ocupação urbana, processos de gentrificação do centro histórico, entre outros temas imprescindíveis. 
        Confesso certa preguiça para o debate de sempre "conservar, salvaguardar, difundir...". Essencial seria discutir políticas públicas que radicalize conceitos e práticas da experiência museal em Belém. Enquanto aguado a oportunidade, caminharei sem ansiolíticos pelos museus, gosto de sentir a "dor no ombro esquerdo" sempre que gritarem as ausências. 

Hugo Menezes Neto
Professor Adjunto do curso de Museologia da UFPA.


Referências:
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004.
HYUSSEN, Andrea. Seduzidos Pela Memória. Rio de Janeiro. Ed. Aeroplano. 2000
JEUDY, Henri-Pierre. O Espelho das Cidades. Rio de Janeiro, Ed. Casa da Palavra. 2005.
LISPECTOR. Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1999.

domingo, 26 de julho de 2015

O cachorro e a mandala: cólera antropozoomórfica.

O cachorro e a mandala: cólera antropozoomórfica.       

     Ordeiro e pacato, assim era ele ou apenas mostrava-se. Abanava o rabo e abaixava a cabeça à espera da recompensa. Latia baixinho para não incomodar. Defecava sempre no mesmo lugar, todos os dias, num novo jornal velho, sem se interessar pelas notícias. Seu mundo era do tamanho de suas ambições. Contentava-se com os restos de comida, com ossos das sobras do almoço. Manso, deitado no chão frio da sala, via o tempo correr e esperava ansiosamente pelo fim da tarde para o seu passeio diário. Quando o sol começara a se recolher sabia ele que viria sua coleira e o levaria para um mundo diferente. Alimentava suas expectativas por infindáveis horas, lembrando da tarde anterior, das mesmas e incríveis ruas nas quais caminha há meses. Na sua retina gritavam imagens da outra dimensão. Suspirava de olhos fechados quando rememorava os cheiros e os sons que se apresentavam pulsantes atrás daquele portal mágico.
      O dia completava seu ciclo e a espera tornava-se um peso. A vontade de sair da realidade cotidiana, só por mais um dia, era incontrolável. A mansidão se esfacelava em face da aflição desmedida contida no desejo de viver outras realidades. Naqueles minutos que antecipavam a saída sempre surgia uma sensação de incompletude, de impotência, medo de não conseguir viver sem ela, o portal precisa ser aberto já. Saltitava de nervoso, febril, arranhava móveis, sentia calafrios, se mordia como punição ou como tentativa de recobrar os sentidos - mantenha-se ordeiro e pacato, pensava, ou não vai cheirar o mundo hoje. De tão confuso não discernia acerca da letargia da sua vida e da abstinência momentânea de sua fuga. Talvez a vida fosse a rua, e a fuga o chão frio da sala que ele injetava nas veias para cumprir as expectativas.  
    É chegado o evento e a coleira surge. Uma volta no quarteirão e rapidamente ele fica inebriado com o bombardeio de felicidade. Eufórico, não sabia lidar com tantas referências, tocava Led Zeppelin no outro lado da calçada, luzes de natal coloridas psicodelizavam a paisagem e frangos grelhados da padaria do vizinho aromatizavam a experiência. Em determinado ponto do passeio lhe tiravam a coleira e diziam: “para você andar sozinho um pouco, bebê”. Então corria desembestado, extravasando uma vontade louca de ser dono de si e de capturar a sensação do vento na fuça, dela se recordaria no dia seguinte quando, manso, estará estendido no chão frio da sala novamente. Rolava na grama, farejava o lixo, interagia com o vira-lata latindo a muitos decibéis acima do usual, por vezes era até violento, abandonava a passividade e o corpo dócil quando irradiado pela força do portal. O pôr do sol era o sinal do fim da viagem. Encoleirado e entorpecido, voltava para a casa medicado com sua dose diária de liberdade consentida. 
      No dia 31 de dezembro já passava da hora do passeio e o portal não se iluminava. Os sintomas tomavam conta do seu corpo fazendo-o morder-se desesperadamente, mutilando-se. Queria sair sozinho, sentia pena e raiva de si mesmo, descobria e revoltava-se com a ausência de autonomia. Não houve passeio, todos muito ocupados com os preparativos do réveillon. Encoleiraram o cachorro e o amarraram no quintal “para não incomodar os convidados”. Preso, entendia agora que a coleira não lhe daria só prazer, porém, resignava-se, os viciados incomodam. 
     Seu estado de resignação, no entanto, se alterou quando os fogos de artifício anunciavam o ano novo promovendo um barulho ensurdecedor tendo em vista sua audição aguçada. Instintivamente latia para afugentar o inimigo, rosnava e passou a andar em círculos para se proteger e atacar. Ao ganhar velocidade o vento bateu em sua fuça despertando memórias sensoriais incontroláveis e com elas os picos de adrenalina que conhecera na rua quando desatinava a correr sem a coleira. Continuou suas repetidas voltas, sentindo-se leve e sem mais ter medo dos fogos. Ao mesmo tempo em que construía uma enorme mandala no chão do quintal, fincando energicamente seus passos na areia, redirecionava sua autopercepção, agora tinha a certeza de que sempre quisera mais da vida. Viu a si próprio como quem sobrevoava uma cena: era um ser grande e forte que embora amarrado decretava a sua desobediência. Parou de correr quando percebeu já ser impossível se desvincular da coleira completamente enroscada no poste e em seu pescoço. Valendo-se da liberdade conquistada, finalmente leu as notícias do jornal do primeiro dia do ano (considerando-as defecáveis) em seguida deixou-se morrer asfixiado para jamais comer as sobras do almoço e, enfim, respirar melhor.     

domingo, 22 de março de 2015

“O Beijo da Babilônia” ou “De Babel à Babilônia”

E assim começa e termina uma semana cuja polêmica é um beijo entre duas lindas senhoras. 

A bancada evangélica faz protestos contra uma novela da Rede Globo, protestos que se espalham especialmente nas redes sociais. Os líderes dessa bancada, como Silas Malafaia e Marcos Feliciano, estavam à frente do evento contra a Dilma-corrupção-cubanização-aumentodagasolina-altadodólar... Esse evento do último dia 15/03 foi transmitido pela mesma emissora à exaustão, um domingo inteiro de protestos para “informação e entretenimento” do telespectador. Aqueles que são a favor de Dilma e/ou contra os protestos condenam a Globo por ter dado demasiada atenção ao evento, por ter manipulado dados, por não ser imparcial, fazer oposição declarada, por ser instrumento de transmissão de ideias de pessoas “coxinhas” (tidos como alienados, reacionários, elites, “de direita”). Os “contra-coxinhas” fazem, então, uma campanha-boicote contra a emissora e a transmissão dos protestos; estende sua indignação ao Jornal Nacional que, de fato, traduz a posição da emissora dos Marinhos e não poupa o PT e seu Governo, mas poupa o PSDB e seu entorno. No dia seguinte, a TV Globo estréia a novela das 21hs, Babilônia; nesse primeiro capítulo duas mulheres se beijam, causando a indignação da referida bancada evangélica que resolve impetrar uma campanha junto aos seus fiéis contra a novela e a favor da moral e dos bons costumes, pede então que desliguem a TV no horário da exibição. Os “contra-coxinhas – contra-Globo” passam a defender o “beijo gay”, a diversidade, as atrizes, as questões políticas que esse beijo traz, e, como efeito inadvertido, a novela das nove da Globo. E João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém...

Ao defender o famoso beijo, indiretamente, ilumina-se o avanço da Globo que anos antes, em 2005, no último capítulo da novela América, vetou o beijo entre os atores Bruno Gagliasso e Eron Cordeiro; redimindo-se em 2013, no último capítulo de Amor à Vida, com a exibição do beijo dos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso, repetindo a dose em 2014 com o beijo entre as atrizes Giovanna Antonelli e Tainá Muller, na novela “Em Família”. Quem gosta da ideia do boicote é o SBT que imediatamente veicula o slogan “novela pra família é aqui” atraindo o público para a reexibição de Carrossel. Todavia, a emissora de Silvio Santos finge esquecer que exibiu, e se vangloriou por isso nas mesmas redes sociais, o primeiro “beijo gay da TV brasileira” com Luciana Vendramine e Gisele Tigre, na novela Amor e Revolução, em 2011. A Rede Record, também tenta se beneficiar do boicote à sua inimiga, fala mal de Babilônia destacando a temática homoafetiva da novela, na busca por alguns pontinhos para a reta final de sua produção, que se teve “beijo gay” ninguém viu, quem assiste “Vitória”?. Já era de se esperar, pois a Record boicota até seus aliados, haja vista a ampla cobertura dada por ela aos protestos do dia 15/03, uma emissora da Igreja Universal que tem no PRB seu braço político, um partido da base aliada do PT de Dilma. 

Babilônia termina a semana com outro beijo entre as duas senhoras e a audiência em baixa, não sei se pelo boicote ou porque a novela é ruim. Infelizmente Tereza e Ester correm perigo, pois, já vimos os efeitos desses gritos fundamentalistas, moralistas e homofóbicos na teledramaturgia. Espero que não ocorra nenhuma explosão como aquela que matou as personagens de Christiane Torlone e Silvia Pheifer em outra novela das nove, Torre de Babel, em 1998, tragicamente soterradas na explosão de um shopping. A grande diferença é que as duas últimas nem se beijaram, morreram só por ter existido... Por via das dúvidas, Fernanda Montenegro e Natália Timberg devem evitar shoppings e de igual maneira os próximos autores devem evitar batizar suas novelas com nomes bíblicos.      


ps. Lembro, quando criança, queimaram meu fofão porque disseram que tinha uma adaga do satanás dentro do boneco. Lembro também quando quebraram o disco da Xuxa da minha irmã porque se rodasse o LP ao contrário ouvia-se vozes ocultas... Fiquei com pena do meu fofão, mas da Xuxa eu sempre desconfiei...