domingo, 22 de março de 2015

“O Beijo da Babilônia” ou “De Babel à Babilônia”

E assim começa e termina uma semana cuja polêmica é um beijo entre duas lindas senhoras. 

A bancada evangélica faz protestos contra uma novela da Rede Globo, protestos que se espalham especialmente nas redes sociais. Os líderes dessa bancada, como Silas Malafaia e Marcos Feliciano, estavam à frente do evento contra a Dilma-corrupção-cubanização-aumentodagasolina-altadodólar... Esse evento do último dia 15/03 foi transmitido pela mesma emissora à exaustão, um domingo inteiro de protestos para “informação e entretenimento” do telespectador. Aqueles que são a favor de Dilma e/ou contra os protestos condenam a Globo por ter dado demasiada atenção ao evento, por ter manipulado dados, por não ser imparcial, fazer oposição declarada, por ser instrumento de transmissão de ideias de pessoas “coxinhas” (tidos como alienados, reacionários, elites, “de direita”). Os “contra-coxinhas” fazem, então, uma campanha-boicote contra a emissora e a transmissão dos protestos; estende sua indignação ao Jornal Nacional que, de fato, traduz a posição da emissora dos Marinhos e não poupa o PT e seu Governo, mas poupa o PSDB e seu entorno. No dia seguinte, a TV Globo estréia a novela das 21hs, Babilônia; nesse primeiro capítulo duas mulheres se beijam, causando a indignação da referida bancada evangélica que resolve impetrar uma campanha junto aos seus fiéis contra a novela e a favor da moral e dos bons costumes, pede então que desliguem a TV no horário da exibição. Os “contra-coxinhas – contra-Globo” passam a defender o “beijo gay”, a diversidade, as atrizes, as questões políticas que esse beijo traz, e, como efeito inadvertido, a novela das nove da Globo. E João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém...

Ao defender o famoso beijo, indiretamente, ilumina-se o avanço da Globo que anos antes, em 2005, no último capítulo da novela América, vetou o beijo entre os atores Bruno Gagliasso e Eron Cordeiro; redimindo-se em 2013, no último capítulo de Amor à Vida, com a exibição do beijo dos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso, repetindo a dose em 2014 com o beijo entre as atrizes Giovanna Antonelli e Tainá Muller, na novela “Em Família”. Quem gosta da ideia do boicote é o SBT que imediatamente veicula o slogan “novela pra família é aqui” atraindo o público para a reexibição de Carrossel. Todavia, a emissora de Silvio Santos finge esquecer que exibiu, e se vangloriou por isso nas mesmas redes sociais, o primeiro “beijo gay da TV brasileira” com Luciana Vendramine e Gisele Tigre, na novela Amor e Revolução, em 2011. A Rede Record, também tenta se beneficiar do boicote à sua inimiga, fala mal de Babilônia destacando a temática homoafetiva da novela, na busca por alguns pontinhos para a reta final de sua produção, que se teve “beijo gay” ninguém viu, quem assiste “Vitória”?. Já era de se esperar, pois a Record boicota até seus aliados, haja vista a ampla cobertura dada por ela aos protestos do dia 15/03, uma emissora da Igreja Universal que tem no PRB seu braço político, um partido da base aliada do PT de Dilma. 

Babilônia termina a semana com outro beijo entre as duas senhoras e a audiência em baixa, não sei se pelo boicote ou porque a novela é ruim. Infelizmente Tereza e Ester correm perigo, pois, já vimos os efeitos desses gritos fundamentalistas, moralistas e homofóbicos na teledramaturgia. Espero que não ocorra nenhuma explosão como aquela que matou as personagens de Christiane Torlone e Silvia Pheifer em outra novela das nove, Torre de Babel, em 1998, tragicamente soterradas na explosão de um shopping. A grande diferença é que as duas últimas nem se beijaram, morreram só por ter existido... Por via das dúvidas, Fernanda Montenegro e Natália Timberg devem evitar shoppings e de igual maneira os próximos autores devem evitar batizar suas novelas com nomes bíblicos.      


ps. Lembro, quando criança, queimaram meu fofão porque disseram que tinha uma adaga do satanás dentro do boneco. Lembro também quando quebraram o disco da Xuxa da minha irmã porque se rodasse o LP ao contrário ouvia-se vozes ocultas... Fiquei com pena do meu fofão, mas da Xuxa eu sempre desconfiei...