segunda-feira, 4 de abril de 2016

Mudanças (Dois anos de Belém do Pará)

Mudanças (Dois anos de Belém do Pará)


Sou fotofóbico e despudorado. Gosto do escuro e do mistério das portas fechadas, de seguir tateando pessoas, me desfazendo de vultos e implodindo ferrolhos. Vou pela mata cerrada, Oxossi me guia de dentro para fora. Descubro aos poucos que o caos não é o fim do caminho, é a minha própria forma de andar: desritmada, amelódica e intranquila. Respiro errado nesse beco sem saída desde que abandonei meus olhos há duas esquinas atrás. Enxergar com nitidez é um erro vital. Estou reaprendendo, então, desenvolvendo brânquias, desumanizando-me aos poucos para voltar a ser gente, um ser de olhar turvo e sensibilidade aguçada. Por ora só transpiro cheiro de terra, me embriago de poesia suja e celebro teorias simples – como a indivisibilidade do próton e do nêutron, da vida e da morte, do yin e do yang. Assumo definitivamente os radicalismos afetivos do meu espírito sempre disponível à loucura, caçador de outros iguais, esforçando-se em identificar os que fogem da cura e da higiene mental, tratando-os como pares de caminhada, cúmplices. Parei debaixo da mangueira só para pensar que o universo continua se expandindo e eu mudando... Eu, jamais o mesmo, jamais diferente.