O
gozo como subversão: aqueles dois.
Dois
corpos nus no chão, entrelaçados sem começo, meio e fim, olham-se mútua e
fixamente com certo orgulho de sua cumplicidade. Ainda exalavam lascívia e
mansidão, como se o mundo se encerrasse ali na disforme geometria da luxúria. Profanaram-se
sem culpa, debochando das punições, finalmente tomaram para si as regiões
inacessíveis do outro, atacando-se. As carnes rasgadas eram marcas da guerra,
de quando invadiram-se por horas, de quando comeram-se famintos e sem paz. Só
agora, nesse estado de exaustão definitiva, ressentem-se do tempo perdido com
pudores nocivos e moralidades mórbidas. Gemidos incrustados nas paredes eram palavras
da salvação pronunciadas sensualmente, as únicas testemunhas. Não havia desejo
apenas, os corpos abandonados sugeriam vida ao avesso, desvida, porque sempre é
tarde demais para pagar a dívida, porque tudo desaba quando se revela o não
dito. Restava apenas o nosso insuportável reflexo aprisionado na retina alheia,
melhor atear fogo e respirar intensamente a combustão das normas. A beleza do
corpo carbonizado reverte-se na fumaça que sobe sem limites, na potência
restaurada pela transformação da matéria. Aqueles dois, cabeças iguais, mãos
dadas, pernas trançadas, um dentro do outro, confundiam-se numa massa amorfa e à
medida que se penetravam cresciam. A seiva dos seus orgasmos rebeldes fora soterrada
pelo medo do contraexemplo, então, gigantescas flores carnívoras com formatos
de genitais brotam da terra tocada pela fertilidade e poética revolucionária:
nada mais deve nascer do que é consagrado. O sorriso melancólico denunciava a
experiência dos desertores, daqueles cujo único caminho é a
negação e o confronto, a substituição da existência despontencializada pelo
gozo erótico como experiência política libertadora. Sabiam, aqueles dois, que nos corpos indecorosos está a esperança, por isso morrer de tanto trepar é um
poderoso ato de subversão e protesto.
Hugo
Menezes Neto