quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A casa sou eu.

Abrigo a mim e as minhas diversas formas de existir.
Sou campo minado e jardim fecundo.
Meu corpo esconde, a alma fareja.
Debocho das portas fechadas e devoro as brechas.
A vida nova está embaixo dos pés e na força das asas.
Ode ao tempo morto e ao desapego. Ode a tudo que se regenera.
Ciclo solar, batismo de fogo que mata, renova e fertiliza. 
Viva!


Agora quero abrir o porão. Lá encontrarei, como diria Lispector, “o pensamento atrás do pensamento”. Há muito não visito esse (in)cômodo. É fácil ficar apenas na sala asséptica, tudo em seu devido lugar e o lixo menos nocivo embaixo do tapete para ninguém ver, nem eu. Limpo com aflição esse espaço da resiliência, e nos porta-retratos projeto minha ficção: camadas e mais camadas de representações, expectativas, sorrisos e tinta branca. Instintivamente, como que por sobrevivência, guardo no porão um eu impublicável, fotos desfocadas, rascunhos, fracassos, desencontros. Transformo parte da casa numa masmorra onde com irregularidade alimento, silenciosa e involuntariamente, meus prisioneiros. Entro sem bater, invadindo meu próprio território. Monstros adormecidos saúdam meu ato de bravura. O bom inimigo deve reconhecer a coragem do seu adversário, o bom soldado se vê como o primeiro inimigo a ser vencido. Cumpri a missão que estabeleci sem saber se era autopunição ou privilégio. Revirei lembranças, ressentimentos empoeirados e rancores fora da validade. Alguns me surpreenderam por resistir, convalescentes perdiam a cor lentamente. Outros vivos e intensos como um quadro de Klint e difusos como as linhas de Dalí, continuavam a sangrar. O cheiro é mofo com um tanto de orgulho e salvação. Diversos espelhos refletiam imagens disformes, demorei em distinguir os meus “eus” guardados.  Doídos são os desafetos que me olhavam nos olhos com fúria e amor reprimido. Um deles estendeu a mão. Ignorei. Não sou tão generoso como gostaria, não consigo colocá-lo no colo e dizer “vamos ficar bem”, pois aqui tudo o que parece realmente é. Depois de condenados a viver juntos aprendi a desamar sem compaixão. Atônito, ouvi os gritos do meu pai me ensinando como um homem “de verdade” deve se comportar. Vi um adolescente acuado no canto esquerdo (desilusões amorosas desbotadas soam hoje tragicômicas). Antes de partir, esbarrei em coisas da minha mãe encaixotadas, avisavam: cuidado, frágil e inflamável. Ao sair, respirei fundo a descoberta de que o pensamento atrás do pensamento é abismo. O passado é o suicídio do  presente e o amanhã uma promessa. Salve-se, não espere. Vou substituir os porta-retratos pelas flores murchas e os rabiscos que encontrei no porão, eles são mais sinceros. Como todos os anos, abrirei um champanhe para brindar meu caminho de volta, a partir dele ganho o mundo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O gozo como subversão: aqueles dois

O gozo como subversão: aqueles dois.

Dois corpos nus no chão, entrelaçados sem começo, meio e fim, olham-se mútua e fixamente com certo orgulho de sua cumplicidade. Ainda exalavam lascívia e mansidão, como se o mundo se encerrasse ali na disforme geometria da luxúria. Profanaram-se sem culpa, debochando das punições, finalmente tomaram para si as regiões inacessíveis do outro, atacando-se. As carnes rasgadas eram marcas da guerra, de quando invadiram-se por horas, de quando comeram-se famintos e sem paz. Só agora, nesse estado de exaustão definitiva, ressentem-se do tempo perdido com pudores nocivos e moralidades mórbidas. Gemidos incrustados nas paredes eram palavras da salvação pronunciadas sensualmente, as únicas testemunhas. Não havia desejo apenas, os corpos abandonados sugeriam vida ao avesso, desvida, porque sempre é tarde demais para pagar a dívida, porque tudo desaba quando se revela o não dito. Restava apenas o nosso insuportável reflexo aprisionado na retina alheia, melhor atear fogo e respirar intensamente a combustão das normas. A beleza do corpo carbonizado reverte-se na fumaça que sobe sem limites, na potência restaurada pela transformação da matéria. Aqueles dois, cabeças iguais, mãos dadas, pernas trançadas, um dentro do outro, confundiam-se numa massa amorfa e à medida que se penetravam cresciam. A seiva dos seus orgasmos rebeldes fora soterrada pelo medo do contraexemplo, então, gigantescas flores carnívoras com formatos de genitais brotam da terra tocada pela fertilidade e poética revolucionária: nada mais deve nascer do que é consagrado. O sorriso melancólico denunciava a experiência dos desertores, daqueles cujo único caminho é a negação e o confronto, a substituição da existência despontencializada pelo gozo erótico como experiência política libertadora. Sabiam, aqueles dois, que nos corpos indecorosos está a esperança, por isso morrer de tanto trepar é um poderoso ato de subversão e protesto.  
Hugo Menezes Neto

23/11/2015.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dores e ausências nos museus de Belém: comentários despretensiosos sobre a Primavera de Museus.

Dores e ausências nos museus de Belém.
Comentários despretensiosos sobre a Primavera de Museus.

Dor de Museu
“Só posso chamar assim porque essa dor só aparece quando percorro museus. Mal começo a caminhar e a parar diante dos quadros vem a dor no ombro esquerdo – é sempre a mesma. Gostaria de saber do que se trata. É dor de emoção?” (Clarice Lispector, 1999:153). 

            Creio, inspirado em Clarice Lispector, que os museus são lugares propícios para a “dor de emoção” por seu potencial para ativar reflexões sobre nós e para iluminar - por dispositivos estéticos, imagéticos e discursivos – os processos de construção das nossas realidades (Berger e Luckmann, 2004). No complexo museal do centro histórico de Belém (como em outras cidades), entretanto, esse potencial é desperdiçado. 
          Nos museus, a meu ver, ideais, as verdades são destronadas, o oficial é questionado, a lógica cartesiana suplantada, a diversidade e a diferença exaltadas. Nada é apenas belo, triunfante e relativo ao passado: o feio (e outras poéticas), as derrotas e o presente também compõem seus conteúdos. A dor, portanto, seria parte inerente da experiência. Pulsaria naturalmente, numa espécie de efeito advertido da quebra da estabilidade emocional (metáfora para os paradigmas do pensamento colonial, da domesticação do olhar, dos corpos dóceis, das matrizes culturais normativas... pensando em  Boaventura, Rancière, Foucault e Butler) pautada na letargia-alienação na qual vive nossa sociedade tarja preta.
    O visitante-turista dos museus de Belém, ávido por uma selfie e por entretenimento inofensivo, passeia com tranquilidade fleumática entre narrativas expográficas embebidas na história oficial-hegemônica; leia-se branca, masculina, heterossexual, católica e elitizada. Esses museus, em grande medida, estão a serviço da supervalorização da belle époque belenense e dos personagens locais tidos como importantes. Destacam as referências identitárias luso-brasileiras em detrimento das indígenas e negras, apagando-as. Neles, Lauro Sodré, Antônio Landi e outros homens (governantes, arquitetos, desbravadores) são rememorados e reverenciados. E onde estão as mulheres da história de Belém? E os gays, lésbicas e travestis? Os visitantes mais críticos, no entanto, sentem a “dor da ausência” dessas outras perspectivas e vozes para narrar quem somos e como nos tornamos o que somos. Essa é outra “dor de museu”.  
Esses museus precisam urgentemente revisitar seus conceitos de tempo e espaço, categorias fundamentais da experiência e da apreensão humana (Hyussen, 2000). Devem desestabilizar o privilégio dado ao passado (Idem), aproximando-se das questões do presente e, consequentemente, da vida fora da instituição, a fim de reanimar seus conteúdos nas chaves da identificação e do pertencimento. A retomada do presente, além de reintegrar o cotidiano à história (e à memória) e derrubar os muros para expandir a atuação dos museus, demarca uma posição crítica ao “excesso de conservação” que alicerça os discursos patrimoniais-museais (Jeudy, 2005). Trazer para os museus os problemas do cotidiano urbano, ou levá-los para a cidade, é, inclusive, uma orientação da Nova Museologia, registrada na Carta de Santiago do Chile de 1972, relevante documento para a esse campo de conhecimento, mas, que os gestores parecem desconhecer.
          Movimentemo-no por mais “dor de emoção” e menos “dor de ausência” nos museus de Belém. Espero outras primaveras alinhadas com o pensamento pós-colonial, logo, com referências contundentes às civilizações indígenas e africanas, com mais visibilidade para as mulheres, gays, lésbicas e trans; mais holofotes voltados para os mestres da cultura popular, lideranças comunitárias, artistas de rua, pais e mães de santo, pajés... Torço por primaveras com escopo político, conectadas aos movimentos sociais, com museus tomados pelo movimento negro, movimento LGBTT (e quantas letras forem necessárias), movimento feminista, movimento pelos direitos indígenas... Primaveras que trate de vida, para além das demandas do patrimônio cultural, abrindo frestas para discutir problemas das minorias sociais, mobilidade e ocupação urbana, processos de gentrificação do centro histórico, entre outros temas imprescindíveis. 
        Confesso certa preguiça para o debate de sempre "conservar, salvaguardar, difundir...". Essencial seria discutir políticas públicas que radicalize conceitos e práticas da experiência museal em Belém. Enquanto aguado a oportunidade, caminharei sem ansiolíticos pelos museus, gosto de sentir a "dor no ombro esquerdo" sempre que gritarem as ausências. 

Hugo Menezes Neto
Professor Adjunto do curso de Museologia da UFPA.


Referências:
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004.
HYUSSEN, Andrea. Seduzidos Pela Memória. Rio de Janeiro. Ed. Aeroplano. 2000
JEUDY, Henri-Pierre. O Espelho das Cidades. Rio de Janeiro, Ed. Casa da Palavra. 2005.
LISPECTOR. Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1999.

domingo, 26 de julho de 2015

O cachorro e a mandala: cólera antropozoomórfica.

O cachorro e a mandala: cólera antropozoomórfica.       

     Ordeiro e pacato, assim era ele ou apenas mostrava-se. Abanava o rabo e abaixava a cabeça à espera da recompensa. Latia baixinho para não incomodar. Defecava sempre no mesmo lugar, todos os dias, num novo jornal velho, sem se interessar pelas notícias. Seu mundo era do tamanho de suas ambições. Contentava-se com os restos de comida, com ossos das sobras do almoço. Manso, deitado no chão frio da sala, via o tempo correr e esperava ansiosamente pelo fim da tarde para o seu passeio diário. Quando o sol começara a se recolher sabia ele que viria sua coleira e o levaria para um mundo diferente. Alimentava suas expectativas por infindáveis horas, lembrando da tarde anterior, das mesmas e incríveis ruas nas quais caminha há meses. Na sua retina gritavam imagens da outra dimensão. Suspirava de olhos fechados quando rememorava os cheiros e os sons que se apresentavam pulsantes atrás daquele portal mágico.
      O dia completava seu ciclo e a espera tornava-se um peso. A vontade de sair da realidade cotidiana, só por mais um dia, era incontrolável. A mansidão se esfacelava em face da aflição desmedida contida no desejo de viver outras realidades. Naqueles minutos que antecipavam a saída sempre surgia uma sensação de incompletude, de impotência, medo de não conseguir viver sem ela, o portal precisa ser aberto já. Saltitava de nervoso, febril, arranhava móveis, sentia calafrios, se mordia como punição ou como tentativa de recobrar os sentidos - mantenha-se ordeiro e pacato, pensava, ou não vai cheirar o mundo hoje. De tão confuso não discernia acerca da letargia da sua vida e da abstinência momentânea de sua fuga. Talvez a vida fosse a rua, e a fuga o chão frio da sala que ele injetava nas veias para cumprir as expectativas.  
    É chegado o evento e a coleira surge. Uma volta no quarteirão e rapidamente ele fica inebriado com o bombardeio de felicidade. Eufórico, não sabia lidar com tantas referências, tocava Led Zeppelin no outro lado da calçada, luzes de natal coloridas psicodelizavam a paisagem e frangos grelhados da padaria do vizinho aromatizavam a experiência. Em determinado ponto do passeio lhe tiravam a coleira e diziam: “para você andar sozinho um pouco, bebê”. Então corria desembestado, extravasando uma vontade louca de ser dono de si e de capturar a sensação do vento na fuça, dela se recordaria no dia seguinte quando, manso, estará estendido no chão frio da sala novamente. Rolava na grama, farejava o lixo, interagia com o vira-lata latindo a muitos decibéis acima do usual, por vezes era até violento, abandonava a passividade e o corpo dócil quando irradiado pela força do portal. O pôr do sol era o sinal do fim da viagem. Encoleirado e entorpecido, voltava para a casa medicado com sua dose diária de liberdade consentida. 
      No dia 31 de dezembro já passava da hora do passeio e o portal não se iluminava. Os sintomas tomavam conta do seu corpo fazendo-o morder-se desesperadamente, mutilando-se. Queria sair sozinho, sentia pena e raiva de si mesmo, descobria e revoltava-se com a ausência de autonomia. Não houve passeio, todos muito ocupados com os preparativos do réveillon. Encoleiraram o cachorro e o amarraram no quintal “para não incomodar os convidados”. Preso, entendia agora que a coleira não lhe daria só prazer, porém, resignava-se, os viciados incomodam. 
     Seu estado de resignação, no entanto, se alterou quando os fogos de artifício anunciavam o ano novo promovendo um barulho ensurdecedor tendo em vista sua audição aguçada. Instintivamente latia para afugentar o inimigo, rosnava e passou a andar em círculos para se proteger e atacar. Ao ganhar velocidade o vento bateu em sua fuça despertando memórias sensoriais incontroláveis e com elas os picos de adrenalina que conhecera na rua quando desatinava a correr sem a coleira. Continuou suas repetidas voltas, sentindo-se leve e sem mais ter medo dos fogos. Ao mesmo tempo em que construía uma enorme mandala no chão do quintal, fincando energicamente seus passos na areia, redirecionava sua autopercepção, agora tinha a certeza de que sempre quisera mais da vida. Viu a si próprio como quem sobrevoava uma cena: era um ser grande e forte que embora amarrado decretava a sua desobediência. Parou de correr quando percebeu já ser impossível se desvincular da coleira completamente enroscada no poste e em seu pescoço. Valendo-se da liberdade conquistada, finalmente leu as notícias do jornal do primeiro dia do ano (considerando-as defecáveis) em seguida deixou-se morrer asfixiado para jamais comer as sobras do almoço e, enfim, respirar melhor.     

domingo, 22 de março de 2015

“O Beijo da Babilônia” ou “De Babel à Babilônia”

E assim começa e termina uma semana cuja polêmica é um beijo entre duas lindas senhoras. 

A bancada evangélica faz protestos contra uma novela da Rede Globo, protestos que se espalham especialmente nas redes sociais. Os líderes dessa bancada, como Silas Malafaia e Marcos Feliciano, estavam à frente do evento contra a Dilma-corrupção-cubanização-aumentodagasolina-altadodólar... Esse evento do último dia 15/03 foi transmitido pela mesma emissora à exaustão, um domingo inteiro de protestos para “informação e entretenimento” do telespectador. Aqueles que são a favor de Dilma e/ou contra os protestos condenam a Globo por ter dado demasiada atenção ao evento, por ter manipulado dados, por não ser imparcial, fazer oposição declarada, por ser instrumento de transmissão de ideias de pessoas “coxinhas” (tidos como alienados, reacionários, elites, “de direita”). Os “contra-coxinhas” fazem, então, uma campanha-boicote contra a emissora e a transmissão dos protestos; estende sua indignação ao Jornal Nacional que, de fato, traduz a posição da emissora dos Marinhos e não poupa o PT e seu Governo, mas poupa o PSDB e seu entorno. No dia seguinte, a TV Globo estréia a novela das 21hs, Babilônia; nesse primeiro capítulo duas mulheres se beijam, causando a indignação da referida bancada evangélica que resolve impetrar uma campanha junto aos seus fiéis contra a novela e a favor da moral e dos bons costumes, pede então que desliguem a TV no horário da exibição. Os “contra-coxinhas – contra-Globo” passam a defender o “beijo gay”, a diversidade, as atrizes, as questões políticas que esse beijo traz, e, como efeito inadvertido, a novela das nove da Globo. E João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém...

Ao defender o famoso beijo, indiretamente, ilumina-se o avanço da Globo que anos antes, em 2005, no último capítulo da novela América, vetou o beijo entre os atores Bruno Gagliasso e Eron Cordeiro; redimindo-se em 2013, no último capítulo de Amor à Vida, com a exibição do beijo dos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso, repetindo a dose em 2014 com o beijo entre as atrizes Giovanna Antonelli e Tainá Muller, na novela “Em Família”. Quem gosta da ideia do boicote é o SBT que imediatamente veicula o slogan “novela pra família é aqui” atraindo o público para a reexibição de Carrossel. Todavia, a emissora de Silvio Santos finge esquecer que exibiu, e se vangloriou por isso nas mesmas redes sociais, o primeiro “beijo gay da TV brasileira” com Luciana Vendramine e Gisele Tigre, na novela Amor e Revolução, em 2011. A Rede Record, também tenta se beneficiar do boicote à sua inimiga, fala mal de Babilônia destacando a temática homoafetiva da novela, na busca por alguns pontinhos para a reta final de sua produção, que se teve “beijo gay” ninguém viu, quem assiste “Vitória”?. Já era de se esperar, pois a Record boicota até seus aliados, haja vista a ampla cobertura dada por ela aos protestos do dia 15/03, uma emissora da Igreja Universal que tem no PRB seu braço político, um partido da base aliada do PT de Dilma. 

Babilônia termina a semana com outro beijo entre as duas senhoras e a audiência em baixa, não sei se pelo boicote ou porque a novela é ruim. Infelizmente Tereza e Ester correm perigo, pois, já vimos os efeitos desses gritos fundamentalistas, moralistas e homofóbicos na teledramaturgia. Espero que não ocorra nenhuma explosão como aquela que matou as personagens de Christiane Torlone e Silvia Pheifer em outra novela das nove, Torre de Babel, em 1998, tragicamente soterradas na explosão de um shopping. A grande diferença é que as duas últimas nem se beijaram, morreram só por ter existido... Por via das dúvidas, Fernanda Montenegro e Natália Timberg devem evitar shoppings e de igual maneira os próximos autores devem evitar batizar suas novelas com nomes bíblicos.      


ps. Lembro, quando criança, queimaram meu fofão porque disseram que tinha uma adaga do satanás dentro do boneco. Lembro também quando quebraram o disco da Xuxa da minha irmã porque se rodasse o LP ao contrário ouvia-se vozes ocultas... Fiquei com pena do meu fofão, mas da Xuxa eu sempre desconfiei...  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Sobre o dia do Frevo ou Troquemos amor por políticas públicas.

Sobre o dia do Frevo ou Troquemos amor por políticas públicas.

09 de fevereiro (de 2015), dia do Frevo.

Inicialmente, vale um primeiro esclarecimento. No Jornal Pequeno do dia nove de fevereiro de 1907, encontra-se o mais antigo registro da palavra ‘frevo’, dado trazido pelo pesquisador Evandro Rabello. Naquele momento, entretanto, tratava-se de uma expressão já difundida nas ruas, corruptela do verbo ferver. Logo, não comemoramos 108 anos do frevo em 2015, ele tem mais que isso. O nove de fevereiro é uma data simbólica, apoiada em um suporte documental. Em nove de fevereiro de 2007, ano do centenário desta data emblemática, o Frevo foi registrado como Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo IPHAN, e em dezembro de 2012, como Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO.

Mas, depois de tantos fevereiros, o que tem a comemorar as agremiações de frevo?

Durante minha pesquisa para o doutorado, sobre frevo e samba no carnaval do Recife (PPGSA/UFRJ/IFCS)*, registrei as palavras de Leda Alves, atual Secretária de Cultura da Cidade do Recife, e uma conhecida entusiasta da cultura popular, na reunião pública com os diretores-representantes das agremiações de frevo, ocorrida no Teatro Apolo, em setembro de 2013. Segue um trecho da fala de abertura:

Antes de qualquer coisa, desculpe as outras manifestações, mas eu tenho que falar: o frevo é o símbolo do carnaval do Recife. Mas, o frevo está se degradado, o carnavalesco está sem ânimo. Está faltando amor, a entrega, o entusiasmo de quem faz da sua agremiação a sua vida, [...] o amor que faz a gente amanhecer e anoitecer pensando como vai sair bonito. [...] Saí do concurso tão desanimada, tão triste com o frevo. Ano que vem (2014) ele vai ser o homenageado, o frevo que é nosso, porque nasceu aqui, mas que agora é Patrimônio Imaterial da Humanidade, pelo imenso valor que ele tem. Atravessando a dança, a música, as roupas, tudo relativo ao frevo é muito bonito [...]. Mas o frevo está tão fraquinho em termos de agremiação de frevo. Os maracatus estão vindo cada vez mais fortes e lindos. Os caboclinhos, belíssimos. Os blocos de frevo fazem pena. Pena para não dizer outra coisa. Os clubes de frevo, as troças uma ou duas, no máximo, que estão bem. Por que o pessoal do frevo está tão para baixo? Vamos ver como melhorar esse carnaval, [...] fraco, desanimado, pálido, sem beleza. Um sapato quebrado, um pé diferente do outro, as roupas velhas, com a marca do dobrado da camisa, logo vocês que fizeram tantas coisas bonitas [...]. Eu tenho saudade das coisas que eu via no carnaval do Recife, e por que eu não estou vendo mais? Só pode ser porque o carnaval, o frevo, está morrendo dentro de vocês. Uma alma que morre, não tem vida, não tem expressão. Então, temos que salvar a alma de cada um de nós, a paixão que tem aqui dentro, o espírito que habita cada um [...]. Eu convoco vocês a ressurgirem. Como é que na ‘Terra do Frevo’ não temos quem trabalhe por amor, isso é grave. Falta gente apaixonada pela agremiação que vá de corpo e alma para o frevo. Quem escuta frevo no som de casa, no seu rádio de casa toca frevo o ano inteiro? Ninguém. (Leda Alves, Secretária de Cultura do Recife, em reunião pública com carnavalescos da cidade, em setembro de 2013.)

Concordo com Leda Alves no que concerne ao notável empobrecimento das agremiações de frevo. Quem as assiste no desfile oficial, na Av. Nossa Senhora do Carmo, de fato se depara com um carnaval “fraco, desanimado, pálido, sem beleza. Um sapato quebrado, um pé diferente do outro, as roupas velhas, com a marca do dobrado da camisa”. Contudo, discordo quando diz que a culpa disso é a “falta de amor”. A meu ver, o amor parece ser o um dos sentimentos que ainda mobiliza os carnavalescos a “fazer carnaval” à revelia das dificuldades. Falta-lhes, na verdade, dinheiro, tema que até o fim do encontro ela evitaria.

As agremiações estão, de modo geral, falidas, dependentes da subvenção pública da Prefeitura do Recife, inclusive, comumente ocorre o endividamento e o envolvimento das lideranças com agiotas, haja vista que o fomento não dá conta de todas as despesas. Paralelamente, e/ou consequentemente, é visível a fragmentação do seu corpo social, os grupos não atraem a comunidade na mesma proporção em que perdem foliões. Isso é um dos nós desse problema, pois com menos participantes e sócios que possam nelas investir resta apenas a tal subvenção e, mais pobres, diminuem seu poder de atração, de competitividade. As agremiações não possuem músicos próprios, como já fora um dia, agora são contratados, e devido à grande procura por eles no carnaval findam por se tornarem onerosos profissionais indispensáveis. Também não possuem seus próprios passistas e destaques, para solucionar a questão as agremiações pagam a brincantes para desfilarem nessas e outras funções, pesando seu orçamento. Deste modo, a subvenção não é destinada apenas à confecção de fantasias, alegorias e outros embelezamentos carnavalescos, paga-se com ela tudo o que antes não se pagava.

O frevo está “pálido” não porque “o carnaval está morrendo dentro" dos brincantes, como pensa a Secretária, porém não dá para “amanhecer e anoitecer pensando como vai sair bonito” se não há estrutura para concretizar sonhos e planos. As agremiações demandam novas necessidades, empreendem diferentes relações interpessoais com seu corpo social e, consequentemente, redesenharam suas dinâmicas de organização e produção. A vida mudou e não adianta apenas esperar que tudo volte a ser como antes, em um tom saudosista, sensibilizando os detentores desse bem patrimonial com a mensagem melancólica dos "carnavais saudosos". Falta sim pensar políticas públicas que atendam a novas realidades e deem conta da forma atual de fazer carnaval; que atuem no fortalecimento do corpo social das agremiações, na promoção da sustentabilidade, na revalorização do carnaval das agremiações (e porque não começar pela reestruturação do pólo das agremiações onde acontecem os desfiles?), na efetivação da economia criativa, no estabelecimento de novas parcerias, na reestruturação financeira.     

Leda Alves mostra-se envolvida com as manifestações populares, mas sugeriria (se a mim coubesse opinar, o faço de ousado) apenas que troque "amor" por "políticas públicas", salvará várias almas e o frevo ressurgirá como a fênix. Assim, as agremiações terão mais a comemorar no Dia do Frevo. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ditadura: entre dois aniversários. (Escritos de facebook - novembro/2014)

Ditadura: entre dois aniversários.
Em novembro de 2011 a Presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei que estabeleceu a Comissão Nacional da Verdade (CNV). O intuito premente desta instância é apurar e visibilizar os casos de desaparecidos políticos - opositores do regime militar que desapareceram após serem presos ou sequestrados por agentes do Estado -, chacinas, perseguições arbitrarias e outras violações aos direitos humanos. Sem registro das prisões ou rastros documentais que ajudem a reconstituir as histórias desses "desaparecidos", mães, pais, filhos, esposas, irmãos, amigos até hoje procuram esclarecimentos, velam seus entes queridos sem os corpos, em um luto perene, convivem com as marcas indeléveis da ditadura militar brasileira. Neste mesmo novembro de 2011, a presidenta, que já fora presa e torturada pela mesma ditadura, se pronunciou emocionada: "O Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la".
Em novembro de 2014, no aniversário de três anos da CNV, é possível falar em avanços, na ordem do direito e das memórias, a partir do acesso a documentos ultra-secretos que comprovam e expõem a insensatez e a crueldade dos crimes graves cometidos no período da Ditadura Militar Brasileira. A CNV, então, é uma conquista nacional, importante para a reconstituição de parte da história da sociedade brasileira, em especial para aquelas famílias cujas histórias serão, por gerações, atravessadas pelo terror da ditadura. Não obstante, em 2014 ainda caberia a celebração do aniversário de trinta anos do Movimento “Diretas Já” (1983/1984), emblema da participação da sociedade civil no processo-luta pela redemocratização do país.
A despeito desses aniversários importantes, e suas (não)comemorações, em novembro de 2014, um grupo de brasileiros ocupou a Avenida Paulista (SP) e as redes sociais bradando o impeachment da presidenta eleita e a volta da intervenção militar. E cá estamos no aniversário de 50 anos do Golpe Militar de 64...
Reivindicar nova intervenção militar é aclamar - de forma histérica, burra e amoral - o indefensável, ao desconsiderar as graves violações de direitos humanos ocorridos entre os anos de 1960 a 1980, e neste momento, de certa forma, iluminadas pela aniversariante CNV. Tal passeata de 100, 1000 ou 3000 pessoas (depende da fonte), que pelo seu quantitativo parece irrisória e risível, converte-se em um acinte à memória dos torturados e mortos, bem como à história dos que constituíam a multidão nas ruas dos grandes centros urbanos empenhados na redemocratização há exatos trinta anos.
Seria descabida a realização de uma grande festa de aniversário para as “Diretas Já”, a democracia brasileira amadurece a passos lentos, digna apenas de comemorações acanhadas. No entanto, a passeata de 01 de novembro de 2014 trata-se de uma fagulha de retrocesso próxima ao barril de pólvora reacionário e fundamentalista que é o nosso cenário político atual. Embora ainda fagulhas, essas vozes denotam a recomposição gradual do poder discursivo e mobilizador de forças antidemocráticas adormecidas, ávidas por fogo, na espreita pelo disparar do gatilho.
Cuidado: dezembro é aniversário do AI-5 (46 anos), talvez ainda encontremos gente saudosa...
Hugo Menezes
Facebook, novembro de 2014.
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Facebookianas II dezembro de 2014

Escritos de Facebook, dezembro de 2014. 


Minhas Janelas

As minhas janelas abro quando quero.
Não deseje-me luz, mas sim autonomia, independência, emancipação;
Força para eu fechá-las e ficar no escuro quando quiser.
Brisa, se fizer calor e se eu tiver vontade. 
Abri-las quando chover, mesmo que molhe;
Por que o não ao banho de chuva e ao som do trovão?
E quando eu quiser sol as abrirei novamente.
Faço o que eu quero, pois as janelas são minhas e as quero livres.
Hugo Menezes.
24/12/2014. Natal


Oração 

Que o vento do Norte traga-me serenidade, 
Boas gargalhadas, cheiro de terra e abraços calorosos. 
Que a saudade conceda-me força, 
Bem-querer, sabedoria e ternura. 
Que os desafetos se mantenham em paz,
E os amores em pleno estado de graça.
Que eu seja sempre compaixão, gratidão e subversão,
E nunca acomodação, servidão e rancor.
Quero ser livre.
E por assim viver, feliz.
Hugo Menezes, 
03-12-2014. meu aniversário.