segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Sobre o dia do Frevo ou Troquemos amor por políticas públicas.

Sobre o dia do Frevo ou Troquemos amor por políticas públicas.

09 de fevereiro (de 2015), dia do Frevo.

Inicialmente, vale um primeiro esclarecimento. No Jornal Pequeno do dia nove de fevereiro de 1907, encontra-se o mais antigo registro da palavra ‘frevo’, dado trazido pelo pesquisador Evandro Rabello. Naquele momento, entretanto, tratava-se de uma expressão já difundida nas ruas, corruptela do verbo ferver. Logo, não comemoramos 108 anos do frevo em 2015, ele tem mais que isso. O nove de fevereiro é uma data simbólica, apoiada em um suporte documental. Em nove de fevereiro de 2007, ano do centenário desta data emblemática, o Frevo foi registrado como Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo IPHAN, e em dezembro de 2012, como Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO.

Mas, depois de tantos fevereiros, o que tem a comemorar as agremiações de frevo?

Durante minha pesquisa para o doutorado, sobre frevo e samba no carnaval do Recife (PPGSA/UFRJ/IFCS)*, registrei as palavras de Leda Alves, atual Secretária de Cultura da Cidade do Recife, e uma conhecida entusiasta da cultura popular, na reunião pública com os diretores-representantes das agremiações de frevo, ocorrida no Teatro Apolo, em setembro de 2013. Segue um trecho da fala de abertura:

Antes de qualquer coisa, desculpe as outras manifestações, mas eu tenho que falar: o frevo é o símbolo do carnaval do Recife. Mas, o frevo está se degradado, o carnavalesco está sem ânimo. Está faltando amor, a entrega, o entusiasmo de quem faz da sua agremiação a sua vida, [...] o amor que faz a gente amanhecer e anoitecer pensando como vai sair bonito. [...] Saí do concurso tão desanimada, tão triste com o frevo. Ano que vem (2014) ele vai ser o homenageado, o frevo que é nosso, porque nasceu aqui, mas que agora é Patrimônio Imaterial da Humanidade, pelo imenso valor que ele tem. Atravessando a dança, a música, as roupas, tudo relativo ao frevo é muito bonito [...]. Mas o frevo está tão fraquinho em termos de agremiação de frevo. Os maracatus estão vindo cada vez mais fortes e lindos. Os caboclinhos, belíssimos. Os blocos de frevo fazem pena. Pena para não dizer outra coisa. Os clubes de frevo, as troças uma ou duas, no máximo, que estão bem. Por que o pessoal do frevo está tão para baixo? Vamos ver como melhorar esse carnaval, [...] fraco, desanimado, pálido, sem beleza. Um sapato quebrado, um pé diferente do outro, as roupas velhas, com a marca do dobrado da camisa, logo vocês que fizeram tantas coisas bonitas [...]. Eu tenho saudade das coisas que eu via no carnaval do Recife, e por que eu não estou vendo mais? Só pode ser porque o carnaval, o frevo, está morrendo dentro de vocês. Uma alma que morre, não tem vida, não tem expressão. Então, temos que salvar a alma de cada um de nós, a paixão que tem aqui dentro, o espírito que habita cada um [...]. Eu convoco vocês a ressurgirem. Como é que na ‘Terra do Frevo’ não temos quem trabalhe por amor, isso é grave. Falta gente apaixonada pela agremiação que vá de corpo e alma para o frevo. Quem escuta frevo no som de casa, no seu rádio de casa toca frevo o ano inteiro? Ninguém. (Leda Alves, Secretária de Cultura do Recife, em reunião pública com carnavalescos da cidade, em setembro de 2013.)

Concordo com Leda Alves no que concerne ao notável empobrecimento das agremiações de frevo. Quem as assiste no desfile oficial, na Av. Nossa Senhora do Carmo, de fato se depara com um carnaval “fraco, desanimado, pálido, sem beleza. Um sapato quebrado, um pé diferente do outro, as roupas velhas, com a marca do dobrado da camisa”. Contudo, discordo quando diz que a culpa disso é a “falta de amor”. A meu ver, o amor parece ser o um dos sentimentos que ainda mobiliza os carnavalescos a “fazer carnaval” à revelia das dificuldades. Falta-lhes, na verdade, dinheiro, tema que até o fim do encontro ela evitaria.

As agremiações estão, de modo geral, falidas, dependentes da subvenção pública da Prefeitura do Recife, inclusive, comumente ocorre o endividamento e o envolvimento das lideranças com agiotas, haja vista que o fomento não dá conta de todas as despesas. Paralelamente, e/ou consequentemente, é visível a fragmentação do seu corpo social, os grupos não atraem a comunidade na mesma proporção em que perdem foliões. Isso é um dos nós desse problema, pois com menos participantes e sócios que possam nelas investir resta apenas a tal subvenção e, mais pobres, diminuem seu poder de atração, de competitividade. As agremiações não possuem músicos próprios, como já fora um dia, agora são contratados, e devido à grande procura por eles no carnaval findam por se tornarem onerosos profissionais indispensáveis. Também não possuem seus próprios passistas e destaques, para solucionar a questão as agremiações pagam a brincantes para desfilarem nessas e outras funções, pesando seu orçamento. Deste modo, a subvenção não é destinada apenas à confecção de fantasias, alegorias e outros embelezamentos carnavalescos, paga-se com ela tudo o que antes não se pagava.

O frevo está “pálido” não porque “o carnaval está morrendo dentro" dos brincantes, como pensa a Secretária, porém não dá para “amanhecer e anoitecer pensando como vai sair bonito” se não há estrutura para concretizar sonhos e planos. As agremiações demandam novas necessidades, empreendem diferentes relações interpessoais com seu corpo social e, consequentemente, redesenharam suas dinâmicas de organização e produção. A vida mudou e não adianta apenas esperar que tudo volte a ser como antes, em um tom saudosista, sensibilizando os detentores desse bem patrimonial com a mensagem melancólica dos "carnavais saudosos". Falta sim pensar políticas públicas que atendam a novas realidades e deem conta da forma atual de fazer carnaval; que atuem no fortalecimento do corpo social das agremiações, na promoção da sustentabilidade, na revalorização do carnaval das agremiações (e porque não começar pela reestruturação do pólo das agremiações onde acontecem os desfiles?), na efetivação da economia criativa, no estabelecimento de novas parcerias, na reestruturação financeira.     

Leda Alves mostra-se envolvida com as manifestações populares, mas sugeriria (se a mim coubesse opinar, o faço de ousado) apenas que troque "amor" por "políticas públicas", salvará várias almas e o frevo ressurgirá como a fênix. Assim, as agremiações terão mais a comemorar no Dia do Frevo. 

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