Abrigo a mim e as minhas diversas formas
de existir.
Sou campo minado e jardim fecundo.
Meu corpo esconde, a alma fareja.
Debocho das portas fechadas e devoro as
brechas.
A vida nova está embaixo dos pés e na
força das asas.
Ode ao tempo morto e ao desapego. Ode a
tudo que se regenera.
Ciclo solar, batismo de fogo que mata,
renova e fertiliza.
Viva!
Agora quero abrir o porão. Lá encontrarei, como diria Lispector,
“o pensamento atrás do pensamento”. Há muito não visito esse (in)cômodo. É
fácil ficar apenas na sala asséptica, tudo em seu devido lugar e o lixo menos
nocivo embaixo do tapete para ninguém ver, nem eu. Limpo com aflição esse
espaço da resiliência, e nos porta-retratos projeto minha ficção: camadas e
mais camadas de representações, expectativas, sorrisos e tinta branca.
Instintivamente, como que por sobrevivência, guardo no porão um eu
impublicável, fotos desfocadas, rascunhos, fracassos, desencontros. Transformo
parte da casa numa masmorra onde com irregularidade alimento, silenciosa e
involuntariamente, meus prisioneiros. Entro sem bater, invadindo meu próprio
território. Monstros adormecidos saúdam meu ato de bravura. O bom inimigo deve
reconhecer a coragem do seu adversário, o bom soldado se vê como o primeiro
inimigo a ser vencido. Cumpri a missão que estabeleci sem saber se era
autopunição ou privilégio. Revirei lembranças, ressentimentos empoeirados e
rancores fora da validade. Alguns me surpreenderam por resistir, convalescentes
perdiam a cor lentamente. Outros vivos e intensos como um quadro de Klint e
difusos como as linhas de Dalí, continuavam a sangrar. O cheiro é mofo com um tanto de
orgulho e salvação. Diversos espelhos refletiam imagens disformes, demorei em
distinguir os meus “eus” guardados. Doídos
são os desafetos que me olhavam nos olhos com fúria e amor reprimido. Um deles
estendeu a mão. Ignorei. Não sou tão generoso como gostaria, não consigo
colocá-lo no colo e dizer “vamos ficar bem”, pois aqui tudo o que parece
realmente é. Depois de condenados a viver juntos aprendi a desamar sem compaixão.
Atônito, ouvi os gritos do meu pai me ensinando como um homem “de verdade” deve
se comportar. Vi um adolescente acuado no canto esquerdo (desilusões amorosas
desbotadas soam hoje tragicômicas). Antes de partir, esbarrei em coisas da
minha mãe encaixotadas, avisavam: cuidado, frágil e inflamável. Ao sair,
respirei fundo a descoberta de que o pensamento atrás do pensamento é abismo. O passado é o suicídio do presente e o amanhã uma promessa. Salve-se, não espere. Vou substituir os porta-retratos pelas flores murchas e os
rabiscos que encontrei no porão, eles são mais sinceros. Como todos os anos, abrirei
um champanhe para brindar meu caminho de volta, a partir dele ganho o mundo.