O cachorro e a mandala: cólera antropozoomórfica.
Ordeiro e pacato, assim era ele
ou apenas mostrava-se. Abanava o rabo e abaixava a cabeça à espera da
recompensa. Latia baixinho para não incomodar. Defecava sempre no mesmo lugar,
todos os dias, num novo jornal velho, sem se interessar pelas notícias. Seu mundo era do tamanho de suas ambições. Contentava-se
com os restos de comida, com ossos das sobras do almoço. Manso, deitado no chão
frio da sala, via o tempo correr e esperava ansiosamente pelo fim da tarde para
o seu passeio diário. Quando o sol começara a se recolher sabia ele que viria
sua coleira e o levaria para um mundo diferente. Alimentava suas expectativas
por infindáveis horas, lembrando da tarde anterior, das mesmas e incríveis ruas
nas quais caminha há meses. Na sua retina gritavam imagens da outra dimensão.
Suspirava de olhos fechados quando rememorava os cheiros e os sons que se
apresentavam pulsantes atrás daquele portal mágico.
O dia completava seu ciclo e a
espera tornava-se um peso. A vontade de sair da realidade cotidiana, só por
mais um dia, era incontrolável. A mansidão se esfacelava em face da aflição
desmedida contida no desejo de viver outras realidades. Naqueles minutos que
antecipavam a saída sempre surgia uma sensação de incompletude, de impotência,
medo de não conseguir viver sem ela, o portal precisa ser aberto já. Saltitava
de nervoso, febril, arranhava móveis, sentia calafrios, se mordia como punição
ou como tentativa de recobrar os sentidos - mantenha-se ordeiro e pacato,
pensava, ou não vai cheirar o mundo hoje. De tão confuso não discernia acerca da letargia da sua vida e da abstinência
momentânea de sua fuga. Talvez a vida fosse a rua, e a fuga o chão frio da sala
que ele injetava nas veias para cumprir as expectativas.
É chegado o evento e a coleira
surge. Uma volta no quarteirão e rapidamente ele fica inebriado com o bombardeio de
felicidade. Eufórico, não sabia lidar com tantas referências, tocava Led Zeppelin
no outro lado da calçada, luzes de natal coloridas psicodelizavam a paisagem e
frangos grelhados da padaria do vizinho aromatizavam a experiência. Em determinado
ponto do passeio lhe tiravam a coleira e diziam: “para você andar sozinho um
pouco, bebê”. Então corria desembestado, extravasando uma vontade louca de ser
dono de si e de capturar a sensação do vento na fuça, dela se recordaria no dia
seguinte quando, manso, estará estendido no chão frio da sala novamente. Rolava na
grama, farejava o lixo, interagia com o vira-lata latindo a muitos decibéis acima
do usual, por vezes era até violento, abandonava a passividade e o corpo dócil
quando irradiado pela força do portal. O pôr do sol era o sinal do fim da
viagem. Encoleirado e entorpecido, voltava para a casa medicado com sua
dose diária de liberdade consentida.
No dia 31 de dezembro já passava da hora do passeio e o portal não se iluminava. Os sintomas tomavam conta do seu corpo fazendo-o morder-se desesperadamente, mutilando-se. Queria sair sozinho, sentia pena e raiva de si mesmo, descobria e revoltava-se com a ausência de autonomia. Não houve passeio, todos muito ocupados com os preparativos do réveillon. Encoleiraram o cachorro e o amarraram no quintal “para não incomodar os convidados”. Preso, entendia agora que a coleira não lhe daria só prazer, porém, resignava-se, os viciados incomodam.
Seu estado de resignação, no entanto, se alterou quando os fogos de artifício anunciavam o ano novo promovendo um barulho ensurdecedor tendo em vista sua audição aguçada. Instintivamente latia para afugentar o inimigo, rosnava e passou a andar em círculos para se proteger e atacar. Ao ganhar velocidade o vento bateu em sua fuça despertando memórias sensoriais incontroláveis e com elas os picos de adrenalina que conhecera na rua quando desatinava a correr sem a coleira. Continuou suas repetidas voltas, sentindo-se leve e sem mais ter medo dos fogos. Ao mesmo tempo em que construía uma enorme mandala no chão do quintal, fincando energicamente seus passos na areia, redirecionava sua autopercepção, agora tinha a certeza de que sempre quisera mais da vida. Viu a si próprio como quem sobrevoava uma cena: era um ser grande e forte que embora amarrado decretava a sua desobediência. Parou de correr quando percebeu já ser impossível se desvincular da coleira completamente enroscada no poste e em seu pescoço. Valendo-se da liberdade conquistada, finalmente leu as notícias do jornal do primeiro dia do ano (considerando-as defecáveis) em seguida deixou-se morrer asfixiado para jamais comer as sobras do almoço e, enfim, respirar melhor.
No dia 31 de dezembro já passava da hora do passeio e o portal não se iluminava. Os sintomas tomavam conta do seu corpo fazendo-o morder-se desesperadamente, mutilando-se. Queria sair sozinho, sentia pena e raiva de si mesmo, descobria e revoltava-se com a ausência de autonomia. Não houve passeio, todos muito ocupados com os preparativos do réveillon. Encoleiraram o cachorro e o amarraram no quintal “para não incomodar os convidados”. Preso, entendia agora que a coleira não lhe daria só prazer, porém, resignava-se, os viciados incomodam.
Seu estado de resignação, no entanto, se alterou quando os fogos de artifício anunciavam o ano novo promovendo um barulho ensurdecedor tendo em vista sua audição aguçada. Instintivamente latia para afugentar o inimigo, rosnava e passou a andar em círculos para se proteger e atacar. Ao ganhar velocidade o vento bateu em sua fuça despertando memórias sensoriais incontroláveis e com elas os picos de adrenalina que conhecera na rua quando desatinava a correr sem a coleira. Continuou suas repetidas voltas, sentindo-se leve e sem mais ter medo dos fogos. Ao mesmo tempo em que construía uma enorme mandala no chão do quintal, fincando energicamente seus passos na areia, redirecionava sua autopercepção, agora tinha a certeza de que sempre quisera mais da vida. Viu a si próprio como quem sobrevoava uma cena: era um ser grande e forte que embora amarrado decretava a sua desobediência. Parou de correr quando percebeu já ser impossível se desvincular da coleira completamente enroscada no poste e em seu pescoço. Valendo-se da liberdade conquistada, finalmente leu as notícias do jornal do primeiro dia do ano (considerando-as defecáveis) em seguida deixou-se morrer asfixiado para jamais comer as sobras do almoço e, enfim, respirar melhor.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMuito bom o conto. Muito bom mesmo. Digno dos grandes contistas brasileiros. Me pareceu algo que Rubem Alves escreveria. Parabéns Hugo.
ResponderExcluirParabéns, Hugo. Um excelente conto!
ResponderExcluirAinda chego nesse nível.