Dores e ausências nos museus de Belém.
Comentários despretensiosos sobre a Primavera de Museus.
Dor de Museu
“Só posso chamar
assim porque essa dor só aparece quando percorro museus. Mal começo a caminhar
e a parar diante dos quadros vem a dor no ombro esquerdo – é sempre a mesma.
Gostaria de saber do que se trata. É dor de emoção?” (Clarice Lispector,
1999:153).
Creio, inspirado em Clarice Lispector, que os
museus são lugares propícios para a “dor de emoção” por seu potencial para
ativar reflexões sobre nós e para iluminar - por dispositivos estéticos, imagéticos
e discursivos – os processos de construção das nossas realidades (Berger e Luckmann,
2004). No complexo museal do centro histórico de Belém (como em outras cidades), entretanto, esse potencial é desperdiçado.
Nos museus, a meu ver, ideais, as verdades são destronadas, o oficial é
questionado, a lógica cartesiana suplantada, a diversidade e a diferença
exaltadas. Nada é apenas belo, triunfante e relativo ao passado: o feio (e
outras poéticas), as derrotas e o presente também compõem seus conteúdos.
A dor, portanto, seria parte inerente da experiência. Pulsaria naturalmente,
numa espécie de efeito advertido da quebra da estabilidade emocional (metáfora para
os paradigmas do pensamento colonial, da domesticação do olhar, dos corpos dóceis,
das matrizes culturais normativas... pensando em Boaventura, Rancière, Foucault e
Butler) pautada na letargia-alienação na qual vive nossa sociedade tarja preta.
O visitante-turista dos museus de Belém, ávido por uma selfie e por entretenimento inofensivo, passeia com
tranquilidade fleumática entre narrativas expográficas embebidas na história
oficial-hegemônica; leia-se branca, masculina, heterossexual, católica e elitizada.
Esses museus, em grande medida, estão a serviço da supervalorização da belle époque belenense e dos personagens locais tidos como importantes. Destacam as referências identitárias luso-brasileiras em detrimento das indígenas e negras, apagando-as. Neles, Lauro
Sodré, Antônio Landi e outros homens (governantes, arquitetos, desbravadores) são
rememorados e reverenciados. E onde estão as mulheres da história de Belém? E os
gays, lésbicas e travestis? Os visitantes mais críticos, no entanto, sentem a “dor
da ausência” dessas outras perspectivas e vozes para narrar quem somos e como
nos tornamos o que somos. Essa é outra “dor de museu”.
Esses
museus precisam urgentemente revisitar seus conceitos de tempo e espaço, categorias
fundamentais da experiência e da apreensão humana (Hyussen, 2000). Devem desestabilizar o privilégio dado ao passado (Idem), aproximando-se das questões
do presente e, consequentemente, da vida fora da instituição, a fim de reanimar seus conteúdos nas chaves da identificação e do pertencimento. A retomada do presente, além de
reintegrar o cotidiano à história (e à memória) e derrubar os muros para expandir a atuação dos museus, demarca uma posição crítica ao
“excesso de conservação” que alicerça os discursos patrimoniais-museais (Jeudy,
2005). Trazer para os museus os problemas do cotidiano urbano, ou levá-los para a cidade, é, inclusive, uma
orientação da Nova Museologia, registrada na Carta de Santiago do Chile de 1972, relevante documento para a esse campo de conhecimento, mas, que os gestores parecem desconhecer.
Movimentemo-no por mais “dor de
emoção” e menos “dor de ausência” nos museus de Belém. Espero outras primaveras alinhadas com o pensamento pós-colonial, logo, com referências contundentes às civilizações indígenas e africanas, com mais visibilidade
para as mulheres, gays, lésbicas e trans; mais holofotes voltados para os
mestres da cultura popular, lideranças comunitárias, artistas de
rua, pais e mães de santo, pajés... Torço por primaveras com escopo político, conectadas aos movimentos sociais, com museus tomados pelo movimento negro, movimento
LGBTT (e quantas letras forem necessárias), movimento feminista, movimento pelos direitos
indígenas... Primaveras que trate de vida, para além das demandas do patrimônio cultural, abrindo frestas para discutir problemas das minorias sociais, mobilidade e ocupação urbana, processos de gentrificação do centro histórico, entre outros temas imprescindíveis.
Confesso certa preguiça para o debate de sempre "conservar, salvaguardar, difundir...". Essencial seria discutir políticas públicas que radicalize conceitos e práticas da experiência museal em Belém. Enquanto aguado a oportunidade, caminharei sem ansiolíticos pelos museus, gosto de sentir a "dor no ombro esquerdo" sempre que gritarem as ausências.
Hugo Menezes
Neto
Professor
Adjunto do curso de Museologia da UFPA.
Referências:
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A Construção
Social da Realidade.
Petrópolis: Ed. Vozes, 2004.
HYUSSEN, Andrea.
Seduzidos Pela Memória. Rio de
Janeiro. Ed. Aeroplano. 2000
JEUDY, Henri-Pierre.
O Espelho das Cidades. Rio de
Janeiro, Ed. Casa da Palavra. 2005.
LISPECTOR.
Clarice. A descoberta do mundo. Rio
de Janeiro: Ed. Rocco, 1999.
👏👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirMandou bem!!! É isso aí!
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