Mudanças (Dois anos de Belém do Pará)
Sou fotofóbico e despudorado. Gosto
do escuro e do mistério das portas fechadas, de seguir tateando pessoas, me desfazendo
de vultos e implodindo ferrolhos. Vou pela mata cerrada, Oxossi me guia de
dentro para fora. Descubro aos poucos que o caos não é o fim do caminho, é a minha
própria forma de andar: desritmada, amelódica e intranquila. Respiro errado
nesse beco sem saída desde que abandonei meus olhos há duas esquinas atrás. Enxergar
com nitidez é um erro vital. Estou reaprendendo, então, desenvolvendo brânquias,
desumanizando-me aos poucos para voltar a ser gente, um ser de olhar turvo e
sensibilidade aguçada. Por ora só transpiro cheiro de terra, me embriago de
poesia suja e celebro teorias simples – como a indivisibilidade do próton e do nêutron,
da vida e da morte, do yin e do yang. Assumo definitivamente os
radicalismos afetivos do meu espírito sempre disponível à loucura, caçador de
outros iguais, esforçando-se em identificar os que fogem da cura e da higiene
mental, tratando-os como pares de caminhada, cúmplices. Parei debaixo da mangueira
só para pensar que o universo continua se expandindo e eu mudando... Eu, jamais o mesmo, jamais
diferente.
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