Hoje nossos pés quase não tocam o chão, por isso não sentimos o cheiro da terra. A força telúrica está na conexão entre nós, a estrada e o beco sem saída. Não há atalho para quem anda sem rumo, como nós. A princípio, abreviar é tão tolo quanto andar em círculos. Na verdade, porém, círculos são trajetórias insistentes, possuem razões próprias e méritos, assim como a contramão... Do jeito displicente, para não dizer incompreensível, com o qual andamos, passo a passo automatizamos o destino. Desavisados, carregamos excessos e procuramos o caminho mais curto e plano. Atrofiamos o discernimento, não mais sabemos quais as nossas necessidades profundas. Olhar para baixo não é cautela, é reverência, para trás é instinto. O rancor pesa, a esperança também, esse é o dilema. O bom andarilho pisa fundo na lama, sente os pés serem envolvidos e nela penetrar como semente. Ninguém sai ileso das sensações orgasmáticas de deflorar seu próprio chão e de deixar-se comer pelo tempo enquanto contempla a paisagem, completamente nu, no alto da colina.
Hugo Menezes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário