Por
que não "Dia da Consciência Humana"?
Porque não!
Porque não!
Porque
varre para debaixo dos tapetes brancos e felpudos os conteúdos políticos
relacionados ao Dia Consciência Negra.
Porque
racismo e desigualdade de oportunidades não são resultados de atos
inconscientes, ao contrário, estão alojados em dispositivos político-sociais
conscientes, oriundos, portanto, da nossa "consciência humana".
Ah,
desculpe! A ideia de "consciência humana" não é no sentido
biológico, de uma "consciência" partilhada por todos os seres da
espécie humana? Refere-se, então, à qualidade de ser sensível ou benévolo uns
com os outros, à tomada de consciência de que somos todos humanos e devemos nos
respeitar e nos amar... Deste modo, diferentemente do Dia da Consciência Negra,
o Dia da Consciência Humana não se apoiaria nas reivindicações políticas
históricas e urgentes da parcela negra da nossa sociedade que sofre com a
"inconsciência humana" ou a
"consciência desumana" de
todos os dias. Ampara-se em um movimento de mudança de paradigmas ou de visão de
mundo, para pessoas de todas “cores”, com intuito filosófico, e quiçá
filantrópico, muito mais abrangente, porém, desconectado da realidade da
população negra brasileira. Em se tratando de coisas distintas, um não pode
substituir o outro. O remédio para nossa amnésia ética e moral, ou o Dia da
Consciência Humana, não atende às discussões sobre discriminação racial,
homicídio de jovens negros, intolerância às religiões afrobrasileiras,
invisibilidade da população negra nos meios de comunicação e arte, racismo
institucional, entre outras pautas contempladas pelo Dia da Consciência
Negra.
Ah,
não é bem isso...?! A nova proposta, o “Dia da Consciência Humana”, é, sobretudo,
bem brasileira, visa celebrar nossa condição de povo miscigenado, fruto da mistura
de raças, um lugar de todos. Logo, o Dia da Consciência Negra reforça preconceitos,
classifica, guetiza, não congrega... Se você não consegue ver o Brasil como país
racista, não vê que nossas interações sociais são preenchidas por preconceitos
e estereótipos negativos atribuídos à população negra, que não há igualdade de
oportunidades (educação, saúde, trabalho, etc.) para brandos e negros, tampouco equidade, há algo errado com os seus
olhos. Se você não enxerga que as desigualdades sociais são, de fato, majoritariamente
experienciadas por negros e negras, reivindique o do “Dia da Consciência Míope”,
lhe será mais coerente.
Deixem o 20 de Novembro seguir seu destino. Para
o Dia da Consciência Humana podemos escolher outra data. Sugiro 29 de fevereiro, pois, com
o intervalo de quatro em quatro anos nos resta mais tempo para pensar.
Axé.
Hugo
Menezes.