Flores e Faces – Os nós de uma vida
virtual feliz.
Sossegue
o maxilar, seu sorriso me cansa. Além disso, deve ser muito difícil ser feliz todo
o tempo.
Poses
com os amigos! Os que estiverem por perto, eles parecerão os mais afetuosos e
maravilhosos melhores amigos de hoje. Foto de uma paisagem, de um prato de
comida, pôr do sol, feijão com arroz e sorrisos. Clicks com o bichano, com o fulano e consigo mesma, caras e bocas em
diferentes ângulos. Vários outros frente ao espelho, fingindo-se displicente
como se, até sem querer, aflorasse a perfeição, e, consequentemente sua
admirável modéstia.
Flash
para o “relacionamento sério”. E quando se trata de amor tudo é registrado em
detalhes minuciosos. Depois, quando acabar, basta excluir. As fotos? Não, as
pessoas. Então, sofrimento e solidão, mas ninguém saberá, o importante é
transbordar alegria, bem-estar e satisfação. Novos amores virão, novas poses,
novos amigos, novas-velhas notícias com outros personagens.
Mensagens de fé,
de amor, de harmonia para animar o dia. Além daquelas “espiritualmente evoluídas”, e, assim, nem
uma miss deseja tanto a paz mundial. Também profundas pseudofilosofias de vida devem ser propaladas, afinal “gentileza gera gentileza”, “a fé não
costuma falhar” e, claro, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.
Opiniões e causas politicamente corretas mostram-se indispensáveis, de preferência
as que não revelem posições polêmicas, tampouco, denunciem sua fragilidade para
o debate: na defesa das baratas cascudas do Azerbaijão, brutalmente
exterminadas(!).
De
repente, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu surgem resplandecentes. Neste
momento tenho vontade de gritar em Caps Lock: “ELES NUNCA FALARAM ESSA PORRA!”.
Mas você não reconheceria minha voz, éramos dois há muitos álbuns atrás.
Confesso, acompanhei sua novela sem interesse,
por hábito. No fundo fico penalizado pelo seu fardo. Tudo tão higiênico, feliz
e impregnado pelo cheiro das flores que lhe enviam em retribuição ao esforço
perene de emanar felicidade. Flores em buquês, porém, não enganam. Embora belas por fora, já estão mortas por dentro. Sinceras, não prometem beleza
eterna, ao contrário, proporcionam o espetáculo sábio e terno da
destruição... Mesmo quando feias e com cheiro de podre não perdem a dignidade de coisa
efêmera, sem obrigação de ser feliz para sempre.
Hugo
Menezes Neto