Quando falamos em cultura popular, nos terreiros ou nas universidades, as palavras mudança, declínio e permanência (seus sinônimos e derivados) são frequentemente acionadas
para elaborar argumentos e produzir explicações sobre a trajetória (a vida) das
expressões artísticas populares. São palavras sedutoras e determinantes.
Destacamos, com orgulho, as manifestações que resistiram às intempéries
políticas e econômicas e às mudanças culturais de uma nova ordem social.
Lamentamos por aquelas que sem o mesmo êxito sucumbiram ao destino previsto
há muito por antigos intelectuais - o fim da tradição e da autenticidade ou a completa extinção.
É
uma espécie de morte, para a qual nós, brincantes e não brincantes, consternados embora não mais surpresos, muito nos dedicamos. Buscamos esclarecimentos, respostas,
culpados. Andamos em círculos, cientes da “força destruidora” da modernidade e
do capitalismo a devastar as “coisas do povo”, resignados.
Defendemos,
então, que a culpa do declínio ou da morte das expressões populares está nos “novos tempos”, no “capitalismo selvagem”.
É culpa, portanto, do Estado, da falta de política pública, da ausência de
subvenções financeiras, da “indústria cultural”, da mídia, das tecnologias, da
falta de apoio da comunidade, do desinteresse da juventude... Causas localizadas fora de nós, no “sistema”, na sociedade, no outro. Esse movimento é
reconfortante, consola e nos exclui da culpa; logo nós, exímios cultivadores
desse sentimento-fardo.
Importante
pensar: o Estado e a sociedade somos nós, os gestores públicos nós escolhemos;
não cobramos/fiscalizamos ou colaboramos com o processo de elaboração e consolidação
de políticas públicas de cultura na mesma intensidade com a qual lamentamos as mudanças e as extinções; somos pouco críticos a intervenção da mídia, do poder
público, da indústria cultural e das novas tecnologias na nossa dinâmica
social; grosso modo, fazemos parte da comunidade e da juventude que não
participa, não é audiência, não reconhece a importância da cultura popular para
além do histórico fetichismo do folclore. Pensando assim saímos do círculo e encontramos
espelhos.
Julgamos, nós coletivo social, como negativas as inevitáveis mudanças estéticas e
conceituais, "não se fazem mais folguedos como antigamente...". Cedemos ao pensamento conservador sob o pretexto de preservação
das tradições, esvaziando, por conseguinte, o poder de mutabilidade e adaptabilidade
da cultura popular, exotizando-a. Não canalizamos energias
para a resolução real dos problemas econômicos dos artistas e grupos populares, na prática, não consumimos e nem somos plateia de suas produções de modo suficiente a garantir sustentabilidades e permanências.
Somos o outro que o outro aponta como
culpado, logo o círculo se fecha rapidamente.
Hugo Menezes Neto
Texto publicado em dezembro de 2013 na plaquete de natal da Prefeitura do Recife, "Caminheiros do sem fim: jornadas do sentir", escrita por Carmem Lélis.
instigante podiamso pensar num texto, o que achas?
ResponderExcluirCompletamente disponível Lady Selma!
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