terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Nós, o outro e a cultura popular.



   Quando falamos em cultura popular, nos terreiros ou nas universidades, as palavras mudança, declínio e permanência (seus sinônimos e derivados) são frequentemente acionadas para elaborar argumentos e produzir explicações sobre a trajetória (a vida) das expressões artísticas populares. São palavras sedutoras e determinantes. Destacamos, com orgulho, as manifestações que resistiram às intempéries políticas e econômicas e às mudanças culturais de uma nova ordem social. Lamentamos por aquelas que sem o mesmo êxito sucumbiram ao destino previsto há muito por antigos intelectuais - o fim da tradição e da autenticidade ou a completa extinção.
   É uma espécie de morte, para a qual nós, brincantes e não brincantes, consternados embora não mais surpresos, muito nos dedicamos. Buscamos esclarecimentos, respostas, culpados. Andamos em círculos, cientes da “força destruidora” da modernidade e do capitalismo a devastar as “coisas do povo”, resignados.
   Defendemos, então, que a culpa do declínio ou da morte das expressões populares está nos “novos tempos”, no “capitalismo selvagem”. É culpa, portanto, do Estado, da falta de política pública, da ausência de subvenções financeiras, da “indústria cultural”, da mídia, das tecnologias, da falta de apoio da comunidade, do desinteresse da juventude... Causas localizadas fora de nós, no “sistema”, na sociedade, no outro. Esse movimento é reconfortante, consola e nos exclui da culpa; logo nós, exímios cultivadores desse sentimento-fardo.
   Importante pensar: o Estado e a sociedade somos nós, os gestores públicos nós escolhemos; não cobramos/fiscalizamos ou colaboramos com o processo de elaboração e consolidação de políticas públicas de cultura na mesma intensidade com a qual lamentamos as mudanças e as extinções; somos pouco críticos a intervenção da mídia, do poder público, da indústria cultural e das novas tecnologias na nossa dinâmica social; grosso modo, fazemos parte da comunidade e da juventude que não participa, não é audiência, não reconhece a importância da cultura popular para além do histórico fetichismo do folclore. Pensando assim saímos do círculo e encontramos espelhos.
   Julgamos, nós coletivo social, como negativas as inevitáveis mudanças estéticas e conceituais, "não se fazem mais folguedos como antigamente...". Cedemos ao pensamento conservador sob o pretexto de preservação das tradições, esvaziando, por conseguinte, o poder de mutabilidade e adaptabilidade da cultura popular, exotizando-a. Não canalizamos energias para a resolução real dos problemas econômicos dos artistas e grupos populares, na prática, não consumimos e nem somos plateia de suas produções de modo suficiente a garantir sustentabilidades e permanências.
   Somos o outro que o outro aponta como culpado, logo o círculo se fecha rapidamente. 
        
Hugo Menezes Neto

Texto publicado em dezembro de 2013 na plaquete de natal da Prefeitura do Recife, "Caminheiros do sem fim: jornadas do sentir", escrita por Carmem Lélis. 

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